skip to Main Content

A santidade revelada

(Lc 9,28-36)

2º Domingo do tempo da quaresma

            Os discípulos estavam longe de conhecer o Mestre, com quem partilhavam a vida e a missão. Nada de extraordinário havia em Jesus, que o distinguisse dos demais seres humanos. Com certeza, alguns traços de sua personalidade faziam dele uma pessoa especial. Contudo, nada que o fizesse impor-se às pessoas, obrigando-as a confessarem sua condição de Filho de Deus.

            A transfiguração revelou aos três discípulos escolhidos o que, em Jesus, está além das aparências: sua santidade. Tudo, na cena, aponta para isto. Jesus transfigurou-se, enquanto estava em oração, em profunda intimidade com o Pai. Seu rosto assumiu uma nova fisionomia. A candura fulgurante de suas vestes, e tudo o mais, apontavam para a riqueza interior do Mestre. O ápice da experiência dá-se quando o Pai o proclama como sendo seu Filho amado. Não resta lugar à dúvida: a humanidade de Jesus encobria sua santidade, que o colocava na esfera divina.

            A proposta dos discípulos, encantados com o que viram, não convenceu a Jesus. Querer ficar no alto do monte, contemplando a glória do Mestre, não era um desejo viável. Era preciso descer a montanha e, com ele, caminhar até a cruz. Só então, para sempre, o fulgor de sua glória despontaria na ressurreição.

Viver diante do Mistério

            O homem moderno começa a experimentar a insatisfação produzida em seu coração pelo vazio interior, pela trivialidade do cotidiano, pela superficialidade de nossa sociedade, pela falta de comunicação com o Mistério.

            São muitos os que, às vezes de maneira vaga e confusa, outras de maneira clara e palpável, sentem uma decepção e um desencanto inconfessável diante de uma sociedade que despersonaliza as pessoas, as esvazia interiormente e as incapacita para abrir-se ao Transcendente. É fácil descrever a trajetória seguida pela humanidade: ela foi aprendendo a utilizar, com uma eficácia cada vez maior, o instrumento de sua razão; foi acumulando um número cada vez maior de dados; sistematizou seus conhecimentos em ciências cada vez mais complexas; transformou as ciências em técnicas cada vez mais poderosas para dominar o mundo e a vida.

            Este caminhar apaixonante ao longo dos séculos tem um risco. Inconscientemente acabamos crendo que a razão nos levará à libertação total. Não aceitamos o Mistério. E, no entanto, o Mistério está presente nos mais profundo de nossa existência. O ser humano quer conhecer e dominar tudo. Mas não pode conhecer e dominar nem sua origem nem seu destino último. E o mais radical seria reconhecer que estamos envoltos em algo que nos transcende: precisamos mover-nos humildemente num horizonte de Mistério.

            Na mensagem de Jesus há um convite escandaloso para os ouvidos modernos: nem tudo se reduz à razão. O ser humano precisa aprender a viver diante do Mistério. E o Mistério tem um nome: Deus, nosso “Pai” que nos acolhe e nos chama a viver como irmãos. Nosso maior problema talvez seja ter-nos tornado incapazes de orara e dialogar com um Pai. Estamos órfãos e não conseguimos e entender-nos como irmãos. Também hoje, em meio a nuvens e escuridão, pode-se ouvir uma voz que continua nos chamando: “Este é meu Filho. […]Escutai-o”.

Portanto lembremos da mensagem da Transfiguração do Senhor.

            A transfiguração do Senhor é um incentivo à perseverança na busca dessa fidelidade ao Evangelho. Esse episódio da vida de Jesus foi transmitido pelos Evangelistas a todas as gerações. A prefiguração da luz e da glória pascal vislumbrada na Transfiguração é a pedagogia divina para ensinar: suportar com fidelidade a paixão e a cruz, pois a ressurreição é garantida pelo Deus da vida.

A transfiguração não é somente uma esperança, mas uma realidade presente na vida do discípulo. Já e agora, nós podemos experimentar a transformação da vida, se, de fato deixamo-nos tomar pela graça.

A transfiguração de Jesus, mesmo que apenas parcialmente aceita, já é a iniciação da vida nova de Deus na história. Toda palavra ou ensinamento de Jesus que acolhemos, seja na quaresma, seja em qualquer momento da vida, redime e transfigura a nossa própria vida e a vida do mundo.

Façamos nossa oração: Espírito de revelação, como aos três discípulos, mostra-nos a santidade de Jesus, com quem devemos caminhar até a cruz. Amém.

Essa matéria tem 0 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Back To Top