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O Sol e o sal

Minha especialidade profissional me leva a repetir, cada verão, que é estimulante pensar em pegar uma corzinha e correr para exibi-la em uma praia. Ocorre, porém que essa prática corrói nosso organismo de modo maligno e silencioso, através de entidades químicas chamadas radicais livres. E eles explodem sob o impacto dos raios solares e dos exercícios físicos violentos, ausentes no resto do ano.

Os radicais livres são o atestado de óbito que recebemos em branco no dia em que nascemos. Caso nenhum acidente ou doença prematura nos tire de circulação durante anos ainda verdes, esse atestado será assinado pelo tempo. Algumas vezes, o tempo estende seus limites mas um dia se entrega à tarefa de desocupação do beco.

As entidades em questão aparecem toda vez que tomamos oxigênio do ar ou somos atingidos pelos raios solares. Já que todos somos obrigados a respirar e não podemos escapar do Sol, os radicais livres são uma maldição que temos que engolir. O único consolo que oferecem é que ninguém é mais do que ninguém e que o planeta não é propriedade de nenhuma geração específica: temos direito de aqui permanecer por alguns anos e depois forçados a entregar o lugar para outros. Teleologicamente, portanto, são perfeito símbolo da justiça de Deus.

Vai daí que produzir o mínimo de radicais livres é um procedimento que testa nossa racionalidade perante as fatalidades do Universo. Então, o simplismo pode nos conduzir à esperta conclusão de que a longevidade está a nosso alcance, desde que não façamos atividade física para não gastar muito oxigênio e andemos sempre cobertos de  protetores solares. Mas, esses procedimentos nos farão vítimas do sedentarismo, que deixará nossos órgãos atrofiados e fracos,  doentes por motivos banais.  

 Essas realidades fisiológicas nos conduzem à prática da moderação e testemunham que peles maltratadas pelo Sol e corridas exaustivas pela praia (ou qualquer outro lugar), são demonstrações de vaidades ou conceitos sanitários pueris e cultivo de uma aparência errada.

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