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O inverno e a cerração

Reunidos, os prefeitos das cidades de Cima da Serra decidiram, apoiando-se em consistentes evidências climáticas, que nos invernos daqui não haverá mais neve.   A postura ética que sustentou sua decisão foi oferecer aos turistas, absoluto convívio com os rigores da verdade. Não que isso seja tão necessário, já que eles acreditam em tudo que se lhes promete.

Então, sendo sensíveis a essa delicada candura, os governos serranos trataram de criar um estímulo que pudesse servir de isca atrativa, tanto quanto a neve foi antes de ser derretida pelo aquecimento global. E a cerração foi o instrumento compensatório desse límpido processo. 

Para colocar em prática tal decisão administrativa, recorreram a São Pedro, o quase infalível interventor celestial do tempo. Entre eles, então, ficou combinado que como novidade turística regional, estaria a substituição da neve pela cerração. O santo gostou da forma com que foi requisitado ao ofício de pistolão.

Todos os munícipes estão concordando com a sabedoria dessa mudança, na qual os prefeitos calibraram um projeto turístico, a longo prazo, com o céu e às nuvens, confirmando a falta de timidez que empreendem na consagração de suas comunidades. É que a neve é um desenho que o Sol logo apaga e a cerração é um mistério que apaga o Sol; a neve é de uma transparência lógica que dificulta e aperta os limites dos espíritos criativos, e a cerração é sólida base para as mais corajosas dissimulações. Mas, a neve é acidente saudosista e a cerração a fiel parceira que estará junto a essa e outras gerações, balançando aos solavancos dos mesmos acidentes históricos.

Entrar na cerração é integrar-se a um mundo solidário único, porque nele ninguém é muito diferente de ninguém. A prova disso é que dentro dela os bonitos viram retratistas e os feios, modelos. Além disso, é abrigo emocional afável porque derrama tolerância e simpatia aos que por ela se deprimem ou a acariciam com sorrisos infantis, trazendo serenidade para os puros e os impuros.

 Por isso e muito mais, espera-se que São Pedro não roa a corda, conforme, volta e meia, tem a fraqueza de proceder. 

Eles se sentem – ainda assim , sentem-se

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