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Folhas pelo chão

Quando Gramado é envolvida pelas beiradas  do inverno, entra na sua fase anual de maior esplendor. O sol empalidece, as flores sensíveis ao frio tornam-se tímidas e as folhas  dos arvoredos mudam de cor e caem.

Os encantados turistas praticam o ingênuo ritual de entrarem em comunhão com a neve que, juram, logo lhes cairá nas cabeças. Geralmente transpiram sob agasalhos pesados demais, porém  sorriem à certeza de tempos inesquecíveis e caminham em cima de  calçadas pontilhadas por  folhas de diversas cores. Olhar uma cidade tão especial pelo simples enfeite que são suas árvores de rua, mostra, um pouco, o esmero com que tratamos esta terra.

Depois de duas décadas de paciência e teimosos recomeços, jovens troncos com  até 15 centímetros de diâmetro ocupam visivelmente os espaços deixados pelos ligustros, companheiros da nossa infância e de passados   veraneios, também inesquecíveis. São áceres, liriodendrons, álamos prateados e  espécies de outros pagos que, igual às pessoas, ajudam a construir as nossas equilibradas e bem sucedidas diferenças. As árvores  mudam quadra por quadra, de acordo com  a região e as variedades da vizinhança. Quanto sabemos,  nenhum outro município gaúcho sequer  pensou em executar um projeto assim. Invade-nos certo orgulho, ao imaginarmos como Gramado será dentro de  uns cinco ou dez anos, ainda mais agora que começamos a entender a importância das árvores públicas na aparência da cidade.

Fazem sombra no verão e, no outono, adornam com folhas o  caminho por onde andam pessoas e gente. Desfolhadas, deixam passar o sol que vai derreter a geada e aquecer o lugarzinho onde moramos.

Contudo, um ou outro de nós ainda pensa que folha pelo chão é sujeira. Mas, folhas pelo chão testemunham a marcha da vida pela mudança das estações do ano, o prazer de sentirmos que estamos vivos, já que marchamos junto. Folhas pelo chão têm jeito de pinhão assado, calefação, lareira acesa e vontade de ficar na cama, na nossa cama. Folhas pelo chão relampejam dinheiro nos bolsos de nossos empresários, por que são o túnel por onde entra o frio. Folhas pelo chão não entopem bueiro, tão rápido zelosos garis as recolhem, mas servem de adubo às mudas de flor que vão embelezar a primavera e o verão. Especialmente, folhas pelo chão valem como  símbolo, para gente que não se cansa de encontrar motivos para confirmar sua alegria de viver em Gramado. 

   

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