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Crer sem ver

(Jo 20,19-31)

2º Domingo após a Páscoa

            A bem-aventurança de crer no Ressuscitado, sem tê-lo visto, diz respeito a todos os cristãos. Neste caso, o pré-requisito para se tornar bem-aventurado consiste em dar crédito ao testemunho de quem “viu” o Senhor, e anunciou que ele está vivo. A tradição cristã, ao longo dos séculos, foi se formando a partir do testemunho dos primeiros cristãos. Estes saíram pelo mundo inteiro para anunciar que o Senhor ressuscitou, testemunhando o fato, não só por palavras, mas também com a vida. O testemunho de fé – palavra e vida – da comunidade é a única forma de ter acesso ao Senhor. Só por este caminho é que se chega a Jesus.

            Como consequência, cada cristão deve estar convicto de que é mediação da experiência do Ressuscitado, para todas as pessoas com quem se defronta. Quando o cristão, realmente, assimila a dinâmica da ressurreição, e a deixa transformar sua vida, torna-se uma prova convincente de que o Senhor está vivo, e sua presença tem a força de mudar, radicalmente, a vida de quem o acolhe. Este é o testemunho que atrairá muitas pessoas para a fé.

            Assim, embora não vejamos Jesus ressuscitado com os nossos olhos, é possível acolhê-lo na fé, e testemunhar que ele, de fato, está no meio de nós.

Alegria e paz

            Não era fácil aos discípulos expressar o que estavam vivendo. O núcleo, porém, é sempre o mesmo: Jesus vive e está de novo com eles. Isto é decisivo. Recuperam Jesus cheio de vida. Pedro, chora ao vê-lo; já não sabe se o ama mais do que os outros, só sabe que o ama. Maria Madalena abre seu coração a quem a seduziu para sempre. Os pobres, as prostitutas e os indesejáveis o sentem de novo perto. No entanto, não mais como na Galileia. Terão que aprender a viver da fé, encher-se de seu Espírito. Todos experimentam o mesmo; uma paz profunda e uma alegria que não pode se conter. Esta experiência é tão central que se pode dizer, sem exagerar, que desta paz e desta alegria nasceu a força evangelizadora dos seguidores de Jesus.

            Onde está hoje essa alegria numa Igreja às vezes tão cansada, tão séria, tão pouco dada ao sorriso, com tão pouco humor e humildade para reconhecer seus problemas, seus erros e limitações? Até quando vamos poder continuar defendendo nossas doutrinas de maneira tão monótona e aborrecida, se ao mesmo tempo não experimentamos a alegria de “viver em Cristo”? E, se não vivermos do Ressuscitado, quem vai encher o coração, onde vamos alimentar nossa alegria? E, se falta a alegria que brota dele, quem vai comunicar “algo novo e bom” aos que duvidam, quem vai ensinar a crer de maneira mais viva, quem vai transmitir esperança aos que sofrem?

Viver de sua presença

            A atual crise da Igreja, seus medos e sua falta de vigor espiritual têm sua origem num nível profundo. Com frequência a ideia da ressurreição de Jesus e de sua presença no meio de nós é mais uma doutrina pensada e pregada do que uma experiência vivida. Cristo ressuscitado está no centro da Igreja, mas sua presença viva não está arraigada em nós, não está incorporada à substância de nossas comunidades, não nutre de ordinário nossos projetos. Depois de vinte séculos de cristianismo, Jesus não é conhecido e compreendido em sua originalidade.

            Nada nem ninguém pode trazer-nos hoje a força, a alegria e a criatividade de que necessitamos para enfrentar uma crise sem precedentes, como pode fazê-lo a presença viva de Cristo Ressuscitado. O Evangelho de João descreve com traços obscuros a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a Igreja se converte num grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”. Com as portas fechadas não se pode ouvir o que acontece lá fora. Não é possível captar a ação do Espírito no mundo. Não se abrem espaços para encontro e diálogo com ninguém. Apaga-se a confiança no ser humano e crescem os receios e preconceitos. Uma Igreja sem capacidade de diálogo é uma tragédia. O medo pode paralisar a evangelização.

Não sejas incrédulo

            A figura de Tomé, como discípulo que resiste a crer, foi muito popular entre os cristãos. No entanto, o relato do evangelho diz muito mais deste discípulo cético. Jesus ressuscitado se dirige e Ele com palavras que têm muito de coação, mas também de convite amoroso: “Não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé, que leva uma semana resistindo a crer, responde a Jesus com a confissão de fé mais solene que podemos ler nos evangelhos: “Meu Senhor e meu Deus”. Não devemos esquecer que uma pessoa que deseja sinceramente crer, para Deus já é um crente. Muitas vezes não é possível fazer muito mais. Deus compreende nossa impotência e debilidade, tem seus caminhos para encontrar-se com cada um de nós para oferecer-nos sua salvação.

            Tomé, que resiste em crer de maneira ingênua nos ensina a nós que jamais vimos o rosto de Jesus, nem ouvimos suas palavras, nem sentimos seus abraços – o percurso que devemos fazer para chegar à fé em Cristo ressuscitado. A fé cristã cresce em nós quando nos sentimos amados e atraídos pro esse Deus cujo rosto podemos vislumbrar no relato que os evangelhos nos fazem de Jesus. Então, seu convite a confiar tem em nós mais força do que nossas próprias dúvidas. “Felizes os que não viram e creram”.

Façamos nossa oração:

            Espírito de fé, tira de nós tudo o que nos impede de acolher, com docilidade, a presença do Ressuscitado em nossa vida e de todos os homens e mulheres de boa vontade que desejam fazer a experiência com o Ressuscitado. Amém

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