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A defesa do Matrimônio

(Mc 10,2-16)

27º Domingo do Tempo Comum

            O divórcio, prática comum na época, foi fortemente condenado por Jesus. Baseados na Lei Mosaica, os maridos não tinham escrúpulos de se desfazer das próprias mulheres, mesmo por motivos banais. Os fariseus, com más intenções, sondaram Jesus para saber a opinião dele a esse respeito. No fundo, queriam saber como ele se posicionava diante da Lei: se a respeitava e se submetia a seus ditames, ou não.

            A resposta de Jesus não permitiu aos fariseus concretizar seu intento. O Mestre retomou o relato da criação, fundamento bíblico do matrimônio, e explicitou o projeto de Deus a partir daí. Segundo a vontade divina, ele consiste numa união indissolúvel entre homem e mulher, a ponto de atingir o auge da comunhão. Aí, a diversidade é superada por uma unidade indissolúvel, representada pela expressão: “serão os dois uma só carne”. Na raiz desta união está o Pai. Ele é quem une. E o que for unido por ele não poderá dissolver-se.

            Em última análise, Jesus estava afirmando que, quando se dá o divórcio, é porque, de fato, não houve matrimônio. Um homem que se sente à vontade para mandar embora sua mulher é porque não chegou a formar com ele uma só carne. Quando, porém, Deus une homem e mulher nada e ninguém tem o direito de desuni-los.

Em defesa da Mulher

            O que mais causava sofrimento às mulheres da Galiléia dos anos 30 do século I era a submissão total ao varão dentro da família patriarcal. O esposo podia até repudiar sua mulher a qualquer momento, abandonando-a a sua sorte. Este direito baseava-se, de acordo com a tradição judaica, nada menos que na lei de Deus.

            Os mestres discutiam sobre os motivos que podiam justificar a decisão do esposo. De acordo com os seguidores de Chammai, só se podia repudiar a mulher em caso de adultério; de acordo com Hillel, bastava que a mulher fizesse qualquer coisa “desagradável” aos olhos do marido. Enquanto os doutos varões discutiam, as mulheres não podiam levantar, sequer, sua voz para defender seus direitos. Ora, Jesus desconcertou a todos. As mulheres nem podiam acreditar. De acordo com Jesus, se o repúdio está na lei, é por causa da “dureza de coração” dos varões e de sua mentalidade machista, mas o projeto original de Deus não foi oque um matrimônio “patriarcal” dominado pelo varão.

            Deus ciou o varão e a mulher para ser “uma só carne”. Os dois são chamados a compartilhar seu amor, sua intimidade e sua vida inteira, com igual dignidade e em comunhão total. Daí a exclamação de Jesus: “O que Deus uniu o homem não separe” com sua atitude machista. Deus quer uma vida mais digna, segura e estável para essas esposas submetidas e maltratadas pelo varão nos lares da Galileia. Ele não pode abençoar uma estrutura que produza superioridade do varão e submissão da mulher. Depois de Jesus, nenhum cristão poderá legitimar com o evangelho nada que promova discriminação, exclusão ou submissão da mulher.

            Na mensagem de Jesus há uma pregação dirigida exclusivamente aos varões, para que renunciem à sua “dureza de coração” e promovam  relações mais justas e igualitárias entre varão e mulher.

Antes de separar-se

            A primeira coisa que podemos lhes oferecer é respeito, escuta discreta, encorajamento para viver e, talvez, uma palavra lúcida de orientação. Pode se oportuno recordar alguns passos fundamentais que sempre é necessário dar. Não renunciar ao diálogo. É preciso esclarecer a relação. Expor com sinceridade o que cada um sente e vive. Procurar entender o que se oculta por trás desse mal-estar crescente. Descobrir o que não funciona. Dar nome a tantas afrontas mútuas que foram se acumulando sem nunca serem elucidadas.

            Mas o diálogo não basta. Certas crises não se resolvem sem generosidade e espírito de nobreza. Se cada um se fecha numa postura de egoísmo mesquinho, o conflito se agrava, os ânimos se crispam e o que um dia foi amor pode transformar-se em ódio secreto e mútua agressividade. A frase de Jesus: “o que Deus uniu o homem não separe” tem suas exigências muito antes de chegar a ruptura, porque os casais vão se separando pouco a pouco, na vida de cada dia.

Separados, mas sempre pais.

            Não é totalmente certo que a separação dos pais cause um trauma irreversível nos filhos. O que lhes causa dano é a falta de amor, a agressividade ou o medo que, às vezes, acompanha uma separação quando realizada de forma pouco humana. Portanto, nunca se deveria esquecer que os que se separam são os pais, não os filhos. Estes têm direito a continuar desfrutando seu pai e sua mãe, juntos ou separados, e não há razão para sofrem sua agressividade nem ser testemunhas de suas disputas e litígios.

            Por outro lado, os filhos não devem ser coagidos a tomar partido por um ou por outro. Eles têm direito a que seus pais mantenham diante deles uma postura digna e de mutuo respeito, sem nunca manchar a imagem do outro e que não os utilizem como “arma de ataque” em seus enfrentamentos. Portanto, é mesquinho chantagear os filhos com presentes ou condutas permissivas, para conquistar seu carinho. Pelo contrário, quem busca realmente o bem da criança facilita-lhe o encontro e a comunicação com o pai ou a mãe que já vive com ela.

            Os filhos têm direito a que seus pais se reúnam para tratar de temas relativos à sua educação e saúde, ou para tomar decisões sobre aspectos importantes para sua vida. O casal não deve esquecer que, mesmo estando separados, continuam sendo pai e mãe de filhos que precisam deles. É preciso afirmar que muitos casais separados fazem tudo para que seus filhos sofram o menos possível as consequências dolorosas da separação, embora nem sempre seja fácil.

Diante dos matrimônios desfeitos

            Precisamos entender com mais serenidade a posição da Igreja diante do divórcio e ver com espírito evangélico que a de defesa de sua doutrina sobre o matrimônio não deve impedir nunca uma postura de compreensão, acolhida e ajuda em relação aos mesmos.

            Nós cristãos não podemos rejeitar nem marginalizar esses casais, muitas vezes vítimas de situações extremamente dolorosas, que estão sofrendo ou sofreram uma das experiências mais amargas que podem acontecer: a destruição de um amor que realmente existiu. As palavras de Jesus?:  “O que Deus uniu o homem não separe” nos convidam a defender a exigência de fidelidade que encerra no matrimônio. Mas estas mesmas palavras não nos convidam também, de alguma maneira, a não introduzir uma separação e uma marginalização desses irmãos e irmãs que sofrem as consequências de seu fracasso matrimonial.

Façamos nossa oração:

Senhor Jesus, que os casais cristãos compreendam a profundidade de sua união, que é obra do próprio Deus. Amém.

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