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As flores dos ipês

                 As flores dos ipês podem ser amarelas ou roxas, em forma de cálice ou cilindro corrugado, estar se exibindo no alto de uma colina ou chamuscadas de picumã em alguma sombria via pública. Mas, em qualquer caso, estão comunicando que o frio ficará guardado para o ano que vem e que não poderemos mais atrair turistas usando a isca da neve frequente. Em compensação, os sabiás que cantam sobre seus galhos floridos proclamam que a Natureza oferece agora novos presentes.

                Às vezes, essas árvores podem se precipitar em direção à primavera de maneira prematura, desperdiçando, ao impacto de frios extemporâneos, suas preciosas flores e a alegria contemplativa que gostaríamos de usufruir por mais tempo. Mas, a culpa não é devida ao entusiasmo dessas árvores, e sim da inconstância temperamental de São Pedro, o pouco consagrado meteorologista do Céu.

                Os ipês se orgulham e se alegram nesses dias, e se agigantam como benignos soberanos de um período gramadense coberto de encanto e poder. Eles, ainda, aparecem como espectadores serenos de cenários locais que mudam rapidamente, acompanhando glórias e desastres que acontecem a seus pés no desfile das gerações que se sucedem. Enquanto a cidade caminha, eles apenas crescem, carregando no tempo a grata lembrança das mãos que os plantaram. E junto com as araucárias, alimentam a inocente esperança de poderem chegar à condição de vigilantes seculares de nossa terra.

                Os mais antigos relatam que já seus avós tomavam os ipês como exemplo de libertação moral. Pois, florindo-se de modo tão delicado, não comprometiam a natureza do seu gênero, apenas mostravam a grandeza de sua força, exibida sob adornos capazes de ferir todos os preconceitos.    

Talvez em gratidão devida à beleza que conferiram as partes do mundo que a eles se ofereceram como domicílio, a morte dos ipês é seguida de novos tempos de distinção, utilidade e prestígio. Vivos, resplandecem a liberdade do sol, da terra e do vento; mortos e transformados em tábuas, entram em nossas casas, associam-se as nossas intimidades, garantem a firmeza de nossos passos e nos salvam do frio que morre nas paredes. E generosos nos abrem as portas da primavera.

  • A abordagem dos ipês nesta semana é para compensar o artigo não enviado em 26/8 e visa aproveitar a oportunidade de mencionar essas flores em Gramado antes que sejam destruídas pelas chuvas de setembro.

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