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Ah! Eu sou gaúcho!

 

O gaúcho representa para mim: chimarrão, chaleira, bandeira,  lenço, faixa e chapéu do meu tamanho. Esta imagem foi registrada por Valentin Leidens Streliaev, em sua casa, Canela/RS

 

De sua fazenda em Bom Jesus/RS, Irineu Dressel faz o caminho a cavalo até a cidade. Crédito: Arquivo pessoal.

 

Origem das cores da bandeira do RS – A faixa verde representa a mata dos pampas gaúchos, a vermelha simboliza o ideal revolucionário e a coragem do povo e a cor amarela representa as riquezas nacionais do território gaúcho. No centro da bandeira há o brasão do Rio Grande do Sul, onde encontramos os dizeres: República Rio-Grandense, 20 de setembro de 1835. Fonte: 
www.suapesquisa.com/estadosbrasileiros/bandeira_rio_grande_do_sul.htm. Crédito da imagem: gauderiosdosul.webnode.com.br

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre. Crédito: Tela Tomazeli

 

Gaúcho, a palavra

Até a metade do século passado, eram chamados gaúchos os aventureiros, ladrões de gado e malfeitores – homens “sem lei, nem rei”, que viviam nos campos. No início, quando a atividade se resumia à extração do couro do gado selvagem, os habitantes do Pampa eram designados como guascas, palavra que significa tira de couro cru. Por volta de 1770, vai aparecer o termo “gaudério”, segundo o historiador Emilio Coni. Diz ele que a expressão gaúcho torna-se corrente nos documentos a partir de 1790.

Quanto à origem da palavra, há muitas divergências. Alguns autores afirmam que o termo gaúcho provém do guarani. Significaria “homem que canta triste”, aludindo provavelmente à “cantilena arrastada dos minuanos”. A maioria dos autores rio-grandenses, no entanto, aceita outra explicação: seria uma corruptela da palavra Huagchu, de origem quêchua, traduzida por gaúcho, que significa órfão e designaria os filhos de índia com branco português ou espanhol, “registrados nos livros de batismo dos curas missioneiros simplesmente como filho de fulano com uma china das Missões”, de acordo com Augusto Meyer. Fonte: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – Edição Revisada e ampliada/2015 – Concepção e pesquisa: Caco Schmitt, Elmar Bones da Costa, Ricardo Fonseca.

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Somos formados dessa mistura, carregada de preconceitos

Certamente pensei duas, três, quatros vezes antes de publicar a origem da palavra gaúcho e, do povo gaúcho. Em quão depreciativo é o significado de nossa denominação, mas não! Reflito que dessas informações históricas e, considerando sua verdade, somos formados dessa mistura, carregada de preconceitos.

Acredito nessa reflexão, sem tornar-me menor, como cada cidadão, gaúcho ou não, deveria buscar na sua origem a referência de conduta, seja de transformação, seja de aceitação, seja de tolerância.

A soberba dos povos os torna indisponíveis ao convívio com seu semelhante e, transforma nossa sociedade em derradeira disputa de valores ‘morais’, desnudos de generosidade para com a realidade do próximo.

Observemo-nos, conheçamo-nos e, por certo, não mais teremos tempo para a incompreensão que hoje rege a humanidade, essa, advinda do Sapiens, com uma diferença, hoje temos todas as condições de reflexão que outrora, o homem em formação da sociedade, não dispunha.

Tela Tomazeli

Ah! Eu sou gaúcha!

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

No inicio era assim

Ponta meridional onde o Brasil mistura hábitos, língua, cultura e paisagens, com os vizinhos do Prata, estamos na última fronteira conquistada pela colonização portuguesa na América. Tudo aqui é transição e fronteira: do Planalto ao Pampa, da Serra à Planície, da influência tropical ao clima temperado, do português ao espanhol na língua.

Nosso território já foi coberto por gelo e teve montanha nevadas, submerso em águas salobras e, depois, pelas areias do deserto. Pelo solo, vincula-se à grande bacia sedimentar do ri Paraná, mas também expõe granitos do maciço central brasileiro. Pela costa, as últimas escarpas da Serra do Mar descem ao nível do mar e dão sequência a um fabuloso conjunto das lagoas costeiras. Fonte: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – Edição Revisada e ampliada/2015 – Concepção e pesquisa: Caco Schmitt, Elmar Bones da Costa, Ricardo Fonseca.

 

"Tira um pedaço ai prá guria que atravessu o barro só para fazer uma fotografia", disse o assador. E que carne prezado leitor, sinto o sabor até agora! Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Erva-Mate

Invenção dos índios, o chimarrão chegou a ser condenado pelos padres jesuítas. “O demônio, por meio de algum feiticeiro, inventou-a”, diziam da erva-mate.

Em 1660, a Companhia de Jesus fez a seguinte oferta a Coroa espanhola: cada índio entre 18 e os 50 anos passaria a pagar uma quantia mínima anual de impostos… A boa condução política, por parte dos padres, resultou quatro anos mais tarde em isenção fiscal para os guaranis. Eles puderam exportar seus excedentes de erva-mate, sem pagar imposto de circulação, até o limite de 180 toneladas por ano.

Essa conquista dos povos missioneiros dá uma ideia da importância da erva-mate na vida dos guaranis. Era deles a erva chamada caamini (pura folha), que alcançava do dobro do preço em todos os mercados, em detrimento da erva comum, com paus, produzida por comerciantes brancos. Os primeiros ervais foram implantados em 1707, e a primeira colheita se deu dez anos depois. Em toda região missioneira, e produção de erva-mate representava mais da metade da produção – o restante era dividido entre algodão, fumo, couros e açúcar. Fonte: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – Edição Revisada e ampliada/2015 – Concepção e pesquisa: Caco Schmitt, Elmar Bones da Costa, Ricardo Fonseca.

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

OS 10 MANDAMENTOS DO CHIMARRÃO

Apesar de simples e informal, a roda de chimarrão tem suas regras. Verdadeiros mandamentos, que devem ser respeitados por todos. Se você é iniciante ou está redescobrindo o costume, observe esses pontos relacionados com boa dose de humor:

1 – NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE

O gaúcho aprende desde piazito o porquê o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas se tu és de outros pagos, mesmo sabendo, poderá achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar nesse pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se por água, ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dollar, etc… mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais, não hesites, pede uma coca-cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

2 – NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO

Tu podes achar que é anti-higiênico por a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando de chimarrão. Repito: pede uma coca-cola de canudinho. O canudo é puro como a água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não nele).

3 – NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS

Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume tuas frescuras (caso desejes te curar, recomendamos uma visita ao analista de Bagé). Se, porém, te julgas perfeitamente igual aos demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vai adorar o chimarrão de lá.

4 – NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE

Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Como o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante, já o chimarrão não. Tu deves tomar toda a água servida até ouvir o ronco da cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento abaixo.

5 – NÃO TE ENVERGONHES DO “RONCO” NO FIM DO MATE

Se, ao acabar o mate, sem querer fizer a bomba “roncar”, não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado. Esse negócio de chupar sem fazer barulho vale para a coca-cola com canudinho que tu podes até tomar com o dedinho levantado (fazendo pose de assumida).

6 – NÃO MEXAS NA BOMBA

A bomba de chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas por favor, não mexas na bomba. Fale com quem te passou o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

7 – NÃO ALTERE A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO

Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve, mas depois de entrar, espera sempre a tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do estado.

8 – NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O PRIMEIRO MATE

Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro mate, saibas que o grosso és tu. O pior mate é o primeiro, e quem toma está te prestando um favor.

9 – NÃO DURMAS COM A CUIA NA MÃO

Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando… E às vezes te surpreendes até imaginando que a cuia não é cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio… Agora, tomar chimarrão numa roda é muito diferente. Aí o fundamental não é meditar, mas sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ris, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que essa tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer a cuia que está na tua mão. Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar o teu mate que a moçada tá esperando.

10 – NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA

Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pega na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que o chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esqueces o câncer. Se não der para esquecer, faz o seguinte: pede uma coca-cola com canudinho que ela etc… etc… Fonte: http://www.chimarrao.com/ Pércio de Moares

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Molho da massa gaúcha. Tudo, tudo que foi para o espeto e sobrou vai para panela para fazer o molho. Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

A Revolução Farroupilha

"Os gaúchos se rebelam, fundam uma República e escrevem a mais empolgante página de sua história, numa época em que se lutava contra a monarquia no mundo inteiro".

"O Governo Central aumenta tributos e toma medidas que prejudicam o comércio das mercadorias gaúchas. Era o que faltava para a revolta".

 

Movida pelas ideias liberais que varriam o mundo, estimulada pelo sucesso das Repúblicas da Argentina e do Uruguai e acelerada pelos interesse econômicos locais, a Revolução Farroupilha teve ainda a impulsioná-la um quadro político radicalizado.

Em oposição aos conservadores da Sociedade Militar, colocavam-se os liberais. Esses se dividiam em duas correntes – a liberal moderada (chimangos) e a liberal exaltada (farroupilhas). Os chimangos, por sua vez, subdividiam-se em liberais republicanos e liberais monarquistas. Entre os liberais monarquistas – pelo menos publicamente, já que pertencia à Guarda Nacional -, colocava-se o próprio Bento Gonçalves.

Muito forte no Rio de Janeiro, o grupo dos farroupilhas teve sua versão gaúcha implantada em Porto Alegre, em 1832. No ano seguinte, promoveu na capital o levante popular contra a instalação da Sociedade Militar, acusada de conspirar pela volta de D. Pedro I. Portanto, o nome farroupilha e sua simplificação, farrapo, eram anteriores à revolução rio-grandense, embora também tenham designado seus seguidores.

As correntes liberais eram maioria na Assembleia. Os mais exaltados enfraqueceram o governo de Fernandes Braga. Indicado pelo próprio Bento Gonçalves para o cargo. Braga passou a defender posições conservadoras: em 20 de abril de 1835, acusou a existência de um movimento republicano separatista. Exatos cinco meses depois, uma frente política que incluía todas as correntes oposicionistas – na quais, na verdade, os separatistas eram minoria – colocou as tropas na rua, avançou sobre Porto Alegre e obrigou Fernandes Braga a fugir. Fonte: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – Edição Revisada e ampliada/2015 – Concepção e pesquisa: Caco Schmitt, Elmar Bones da Costa, Ricardo Fonseca.

 

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre/RS. Crédito: Tela Tomazeli

 

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