Além das ameaças daquele vírus que parece estar com medo de chegar perto de nós, vivemos o dissabor de não dispormos da gentil companhia dos turistas e de seus olhos para se encantarem com a riqueza paisagística pintada para essa época do ano.

Os predicados de aparência que Gramado tem, e seu coroamento com inciativas artísticas de poderosos impactos emocionais, foram surgindo por aí enquanto gerações de conterrâneos iam aparecendo e desaparecendo. Porém, a natureza presenteou-nos com duas molduras permanentes, dentro da quais a criatividade e a ambição gramadenses se alojaram confortavelmente: as montanhas e o outono.

As montanhas nos olham de longe e puxam olhares que buscam o céu; o outono senta à nossa mesa e serve-se de nossos pensamentos. Ele desfruta da autoridade de ter sido escolhido para não ser quente nem frio e abandonado pelas ventanias que deformam os galhos dos arvoredos e entortam os arbustos que vivem a seus pés. A calmaria do outono descansa Gramado dos atropelos do verão e acomoda suas vontades para o   romântico convívio com o inverno e suas paneladas de pinhão.

Mas, a suavidade que o outono concede aos espíritos, provém do delicado brilho que imprime às folhas dos arvoredos, em sua tímida busca por mais luz. Os suaves ímpetos luminosos e a particular consciência que imprime à nossa terra, só os gramadenses podem compreender. Quem, senão nós, somos capazes de colocar misérias globais em nível de sarjeta, para descansar a própria sensibilidade na límpida ingenuidade de um pálido dia ensolarado de outono. Quem, senão nós, pode sentir a resignada agonia das flores de verão despedindo-se de seus tempos e o entusiasmo das que buscam o frio, estimuladas pelos amenos rasgos invernais do outono.

O outono, como nenhuma outra estação, recolhe os gramadenses ao significado de suas obras. O Natal Luz já passou e o inverno recém chega, mas existem glórias a preservar. A Natureza concede calmos tempos para compreender a ser tolerante com fracassos e aceitar os prêmios do sucesso, firmando ações inseridas na bem definida forma gramadense de caminhar em harmonia com o jeito que o mundo de hoje caminha. Contudo, ficamos tristes por não podermos repartir com nossos turistas, esse ano, tão belos recantos de nossa intimidade.