(Mc 1,29-39)

5º Domingo do Tempo Comum

A exegese moderna tomou consciência de que toda a atuação de Jesus sempre sustentada pela “gestualidade”. Não basta analisar as palavras de Jesus, mas o conteúdo profundo dos seus gestos. As mãos são de grande importância no gesto humano. Podem curar ou ferir, acariciar ou golpear, acolher ou rejeitar. As mãos podem refletir o ser da pessoa. Jesus. Jesus toca os discípulos caídos por terra para devolver-lhes a confiança: “Levantai-vos, não temais”. “Homens de pouca fé, por que duvidaste?”. Jesus é muitas vezes mão que levanta, infunde força e põe a pessoa de pé.

Os evangelistas destacam, sobretudo, os gestos de Jesus com os enfermos. Às vezes Jesus “agarra” o enfermo para arrancá-lo do mal. Outras vezes “impõe” suas mãos num gesto de bênção, que transmite sua força curativa. Com frequência estende a mão para “tocar” os leprosos num gesto de proximidade, apoio e compaixão. Jesus é mão próxima que acolhe os impuros e os protege da exclusão.

Onde está Jesus existe amor à vida, interesse pelos que sofrem paixão pela libertação de todo mal. Os relatos evangélicos nos oferecem um Jesus curador. Um homem que difunde vida e restaura o que está enfermo. A doença é uma das experiências mais duras do ser humano, pois sofre a família, os entes queridos e os que atendem. De pouco servem as palavras e explicações. O que fazer quando a ciência já não pode deter o inevitável? A primeira coisa é aproximar-se. O que sofre não ser ajudado de longe. É preciso estar perto. Sem pressa. Dar-lhe forças para que colabore com os que procuram curá-lo. É importante escutá-lo. É um alívio para o doente poder desabafar com alguém de confiança. A verdadeira escuta exige acolhe e compreender as reações do doente.

A teologia contemporânea procura recuperar pouco a pouco uma dimensão do cristianismo que, embora sendo essencial, foi se perdendo em parte ao longo dos séculos. Diferentemente de outras religiões, “o cristianismo é uma religião terapêutica” (Eugen Biser). Na origem da tradição cristã nada aparece com tanta clareza como a figura de Jesus curando doentes. É o sinal que ele próprio apresenta com garantia da sua missão. “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem”.

Por um lado, o cristianismo se preocupou cada vez mais em justificar-se diante de objeções e ataques, utilizando a teologia para expor o conteúdo da fé de maneira doutrinal; pouco a pouco se acabou pensando que o importante era “crer em verdades reveladas”. Por outro lado, a cura foi passando inteiramente para as mãos da ciência médica, cada vez mais capacitada para curar o organismo humano. Não se trata agora de fazer a fé recuperar o terreno cedido à medicina científica,. A religião não é um remédio terapêutico a mais. A perspectiva deve ser outra. A verdade é que a pessoa é muito mais do que um “caso clínico”. Não basta curar enfermidades e doenças. É o ser humano que precisa ser curado.

Assegurada a cura de boa parte das enfermidades graves, o mal sai pela porta traseira e volta a entrar no ser humano sob forma de falta de sentido, depressão, solidão ou vazio interior. Não basta curar algumas enfermidades para viver de maneira sadia. Abre-se assim um caminho para uma forma renovada de crer e de “experimentar Deus como força curadora e auxiliadora”. (Joachim Gnilka).

Talvez nos próximos séculos, só acreditarão os que experimentarem que Deus lhe faz bem, os que comprovarem que a fé é o melhor estímulo e a maior força para viver de maneira mais sadia, com sentido e esperança.

Façamos nossa oração:

Senhor Jesus, nós te procuramos com sinceridade, na certeza de encontrar em ti, palavras que façam revivermos a esperança no coração. Amém.