Todo mundo está gastando as pilhas da Internet para comprovar que o mundo ficará diferente de 2020 em diante. E que todos os pecados das pessoas serão transformados em virtudes; que as instituições serão sustentadas pela honra e seus responsáveis viverão ao largo da corrupção. Mas, supondo que tudo será assim mesmo, ao Corona estará, ainda, sendo atribuída pesada injustiça.

                    As mais eficientes mandingas proféticas estão comprovando que o vírus veio para limpar as cidades. Mostrar o que de melhor elas têm, desestimular o costume de olhar apenas o que possuem de ruim e pensar que ter gente se movimentando é tudo que precisam. Despertar o interesse em deixar que depois desse susto tenhamos a consciência dos tesouros aos quais tão pouco valor até agora tem sido dado.

                    Cá entre nós: antes da Covid, poucos se davam conta de que Gramado era uma cidade tão bonita; que as pessoas fossem assim calmas, gentis umas com as outras, afastadas de reclamações pueris. Pessoas naufragando entre a saudade dos turistas, mas emergindo na descoberta de que somos irmãos morando numa cidade limpa, florida e sombreada por exuberante arvoredo. E o acúmulo de tão lindos predicados faz com que o Corona fique com vergonha de chegar: sua forma grosseira de existir não combina com um lugar preparado para abrigar a beleza e gerar estímulos voltados para esperança, sem jeito para lidar com a vulgaridade dos instrumentos destinados a cumprir efeitos que celebram a dor dos corpos e a inquietação dos espíritos.   

                    Até o convívio com a lástima dos maus negócios entra com o aprendizado de como a dignidade e a criatividade honesta de uma comunidade pode comprovar que é nesses momentos que demostra seu verdadeiro tamanho. As fantasias de empreendedores eufóricos ganharam ocasião de estudo e adaptação. Os trabalhadores compreenderão melhor a importância das fontes que lhes garantem o pão e os empresários que as crises são os momentos mais ricos das pessoas e das instituições.

Então, se esse vírus  cansar de tanto exercer sua maldade mundo afora e resolver visitar Gramado, vai fazer um triste papel. Cometerá um sacrilégio que certamente não será bem-visto por Deus e poderá determinar o fim de sua maligna jornada.