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Romeo Ernesto Riegel

Professor

 

Os calores do inverno

Gramado passa por uma miscelânea climática que deixa os saudosistas batendo cabeça, pois não dá mais para distinguir se esta é uma estação de inverno ou de verão.  Os antigos veranistas usufruíam das carícias dos tempos de sol e de pássaros cantando por todos os ares; os invernistas saciando a plenitude de rolarem na neve abundante e pisarem no quebradiço branco das geadas. Agora, o verão transformou-se em tiroteio e iluminou as noites, enquanto o inverno sucumbiu à mediocridade política de São Pedro.

Mas, quanto ao inverno, surgiu André Calhari que, não para ofender o santo mas para a sobrevivência de um e rendoso mito, resolveu compensar variados interesses e abrir ele mesmo uma fábrica de neve.

Vai daí que essa preciosa adaptação nos deu fama de inteligentes acompanhadores da modernidade, junto ao mais do que perceptível aquecimento global. Mas os visitantes da neve natural e das geadas que não existem, continuam chegando e o André não pôde dar conta de todos. Então, são surpreendidos por outros atrativos e o frio, desmoralizado na medida de sua insignificância, torna-se uma abstração apenas necessária para justificar indumentárias, com gente dentro, a serem mostradas nos nem sempre consistentes domínios das redes sociais. E a nova realidade que Gramado construiu, foi respondida com uma também nova linha de iniciativas empresariais, definindo uma comunidade cosmopolita sem donos onde todos são donos.

Ficou, assim, confirmada a mania gramadense de andar na moda. Afastada da frivolidade pessoal, somos modernos na forma de ganhar a vida, acumulando a vaidade comunitária através das criações que oferecemos. Vivemos os caminhos administrativos típicos e conscientes de uma cidade essencialmente turística, a qual dedicamos toda nossa competência e afeição. E essa terra tem tanto bem nos retribuído, que acreditamos que é até bom que tenham ido embora os terríveis invernos antigos, que transformavam Gramado em uma graciosa geladeira, calavam a natureza e escondiam as pessoas em profundos e solitários nichos de calor.

 

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