Foto: Cleiton Thiele

Em um ano de dificuldades sem precedentes na história dos eventos e do turismo mundial, a Gramadotur fez mais com menos. Após a deflagração da pandemia pelo novo coronavírus, a Autarquia já contava com cenários hostis à realização dos eventos, o desafio de lidar com limitações de caixa e dificuldades na obtenção de patrocínios.

No primeiro semestre, ainda sob gestão do ex-presidente Edson Néspolo, já havia cancelado a Páscoa em Gramado, a Festa da Colônia e a estreia do evento Amor Gramado. Às vésperas da posse do presidente Rafael Carniel de Almeida, a instituição responsável por todos os grandes eventos públicos de Gramado detinha em cada um dos caixas – o de recursos livres e o da Taxa de Turismo Sustentável (recursos regidos pelo art. 4º da lei 3.461/2015) – pouco mais de R$ 2 milhões para fazer frente a todos os seus eventos e custos estruturais e a arriscada missão de reinventar totalmente eventos emblemáticos, com formatos consagrados entre uma a cinco décadas, em tempo recorde.

A estratégia mostrou-se certeira. Segundo recente reunião com a plataforma TripAdvisor, no acumulado do ano de 2020 Gramado foi elencada como destino em destaque na recuperação turística em toda a América, do Alasca até a Terra do Fogo. O portal considera o interesse do público pelos hotéis, restaurantes e atrações do destino.

Pandemia e retração da oferta de patrocínios

A situação da pandemia ocasionou, além do cancelamento dos eventos do primeiro semestre, a retração das empresas patrocinadoras. Algumas delas descapitalizadas, outras temendo danos de imagem em associar suas marcas a eventos com público. Os contratos de patrocínio neste ano, foram, em sua maioria, significativamente menores e isso atingiu todo o setor de eventos, público e privado. A situação agravou-se com a perda de um grande patrocinador do evento no ano de 2020, motivada por desacordo com decisões da antiga gestão relativas à 34ª edição.

Diante das incertezas quanto aos rumos da pandemia, o Conselho de Administração da Gramadotur viu-se obrigado, ainda no final de agosto, a cancelar os grandes espetáculos do Natal Luz, cuja venda de ingressos era a principal fonte de renda da autarquia. Ante o predomínio constatado da bandeira vermelha nesta temporada, a decisão prudente do Conselho, baseada em dados técnicos trazidos pela diretoria executiva, evitou um prejuízo de milhões de reais aos cofres públicos e manteve a autarquia de pé para continuar fomentando a economia do município.

Durante todo esse período, a Gramadotur, ciente do peso de suas atividades na geração de emprego, renda e arrecadação, viu-se obrigada a tomar medidas emergenciais para garantir o retorno dos eventos como forma de suporte à economia de Gramado.

Redução de despesas e reinvenção de eventos

Diante desses desafios, a Gramadotur, que hoje conta com apenas 23 colaboradores mantidos exclusivamente por admissão em concurso e critérios técnicos, reduziu despesas fixas, renegociou contratos, reduziu o quadro e gastos com folha de pagamento, substituiu o diretor de eventos valorizando a experiência da equipe e suprimiu dois cargos gerenciais.

A autarquia também reinventou três eventos gastando muito menos. Como exemplo, um Festival de Cinema totalmente remodelado, que se tornou modelo para toda a América Latina. Em 2019, o evento presencial foi realizado com orçamento de R$ 4,1 milhões. Em 2020, contou com apenas R$ 1,5 milhão (redução de 63% do orçamento), incluindo, além de todo o conteúdo do Festival, a promoção do turismo responsável na cidade de Gramado, divulgando cenas da cidade e seus protocolos através de TV e streaming, atingindo 2,1 milhões de espectadores e conseguindo obter a favor da cidade um resultado de mídia espontânea equivalente a investimentos de R$ 92 milhões. Um recorde em relação as edições anteriores.

Já o Festival de Cultura e Gastronomia, cujo orçamento foi reduzido de R$ 1 milhão em 2019 para R$ 256 mil em 2020, obteve resultados de mídia equivalentes a cerca de R$ 2 milhões. Cabe esclarecer que a mídia espontânea é o espaço conquistado pelo evento em veículos ou canais de comunicação de terceiros sem que haja desembolso pela autarquia. É normalmente o resultado dos esforços dos trabalhos de relações públicas e assessoria de comunicação.

No processo de reinvenção, a acessibilidade foi assegurada. Foi decisão da diretoria executiva e do Conselho de Administração que, a partir deste Festival de Cultura e Gastronomia, ferramentas de acessibilidade para inclusão de pessoas com deficiência é um caminho a ser trilhado de forma progressiva, sem recuos. Decidiu-se também, que a partir de agora, o selo “Do Produtor à Mesa”, que incentiva a compra do produtor rural de Gramado, torna-se um diferencial do nosso Festival de Cultura e Gastronomia.

Gramadotur não fez empréstimos para o Festival de Cinema

O presidente da autarquia, Rafael Carniel de Almeida, esclarece que neste ano também houve uma afirmação equivocada de que a Gramadotur teria pedido um empréstimo de R$ 1,3 milhão para realização do 48º Festival de Cinema. “Essa afirmação não procede e demonstra amplo desconhecimento sobre o significado do termo ‘crédito suplementar’. O que a autarquia solicitou foi apenas um ajuste formal no próprio orçamento. Os recursos da Taxa de Turismo Sustentável (TTS) já pertenciam ao caixa da Gramadotur, mas estavam alocados em rubrica que servia apenas a projetos de infraestrutura. Neste ano, em função da pandemia, precisávamos apenas realocá-los em rubricas que atendessem a serviços de interesse turístico do município. Ou seja, não houve empréstimo algum, apenas o ajuste de finalidade de um recurso que já estava em caixa.”

Futuro da Gramadotur

Além disso, ainda no início de novembro, foi apresentada pelo presidente ao Conselho de Administração uma proposta de reestruturação da governança turística de Gramado, propondo a redistribuição de algumas funções entre prefeitura e autarquia, com base em benchmarking (pesquisa de melhores práticas) realizada internacionalmente. A absorção das atividades de promoção e receptivo da Secretaria de Turismo visa a racionalização de despesas, melhoria de fluxos de informação para os turistas, empresas e munícipes, aumento do rigor técnico no marketing do destino e maior ganho de eficiência nos processos. Um profundo processo aprimoramento de políticas patrimoniais e a parceria com o Município deverá culminar com a racionalização e redução de espaços de armazenamento de acervo, que reduzirão custos e nos permitirão liberar mais espaço do Expogramado para a realização de eventos. Nossos pavilhões também requerem importantes investimentos, os quais estamos dispostos a viabilizar através de diálogo e construção de parcerias. Parcerias nas áreas de inovação do turismo com o Ministério, parceiros privados e entidades internacionais também tem sido avaliadas.

Porém, mesmo com os resultados obtidos pela entidade o momento ainda requer entendimento e compreensão dos munícipes e poderes executivo e legislativo: “Até que possamos reestabilizar totalmente a Gramadotur, o que deverá acontecer através da captação de patrocínios para os eventos, venda de ingressos para o Natal Luz 2021 e a obtenção de novas fontes de receita as quais já temos avaliado, ainda estamos sob alerta e aguardando a votação da câmara dos vereadores para a concessão de um empréstimo de fundos do Município, utilizando recursos do Fundo Verde, a ser devolvido a partir de 2021, de forma parcelada. Já estamos trabalhando firmemente em ações de captação para os eventos de 2021 e o cenário é promissor, mas mesmo com todos os resultados que obtivemos esse ano, vamos precisar de ajuda, formar uma ponte para o nosso fluxo de caixa. Até porque nosso maior intuito é seguir cumprindo nosso papel na recomposição de arrecadação tributária do município”, diz Rafael Carniel, Presidente da Gramadotur. Conteúdo: Rafael Carniel Almeida Presidente da Gramadotur