Parece que a pandemia, que teimosamente desafia o ânimo de tantas pessoas, não conseguiu assustar os ardores ambientais que adornam Gramado. Quando bate o frio, as paisagens pitorescas se pintam de branco e os amores-perfeitos e seus acólitos fazem o contraste que arruma nossa beleza bem no desenho que Deus elaborou com tanto capricho. E quando esquentamos o inverno para manter nossa fidelidade subtropical, as plantas e os animais adormecidos espreguiçam-se de olho na primavera.

Enquanto vivemos tão exigentes e coloridos contrastes podemos ser testemunhas de que as maravilhas que nossos pais descreviam com tanto ardor, quando éramos crianças, continham a verdade que lhes justificava o afeto por um lugar merecedor de ser palco adequado para a criação de seus filhos. É que Gramado, apesar de algumas levianas avaliações históricas derrotistas, nunca foi climaticamente muito diferente do que é hoje.

Não somos carimbados por estações de tempo malignas e monotonamente previsíveis, como acontece na Europa e América do Norte, por exemplo. Vivemos a graça de desfrutar de verão no meio do inverno e dezembro com turistas graciosamente se adornando para enfrentar as friagens que Papai Noel nos oferece como presente e compor retratos para enviar a seus amigos ou guardar como lembrança. Mas, não importa o temperamento nem os caminhos do termômetro, espiritualmente vivemos sempre em tempos de primavera.

Tudo e todos estamos acostumados com os balanços da temperatura, do chuvisqueiro e da cerração – e nos deliciamos com tudo isso. Quando nosso ânimo se enfarrusca, conturbando os mais secretos esconderijos de nosso entusiasmo, nos consolamos imaginando que o que não tem jeito de primavera, guarda a essência de que ela um dia virá. E essa peculiar e inocente esperança, limpa o remorso de julgamentos perniciosos que possam ter escapado ao controle de nossa tolerante vontade.

Pois, essa clarividente e pouco democrática forma de nos olharmos no espelho é a raiz de nossa determinação de lidar digna e eficientemente com os sorrisos e os azares do destino. Sendo assim, e assim agindo desde o dia em que nasceram nossos avós, vamos construindo o encanto e o charme do lugar que os outros chamam de “A maior pequena cidade do Brasil”.