Certamente, a solidão é o lugar mais seguro que existe, inviolável espaço para o trânsito livre do pensamento, dos julgamentos sem testemunhas ou provas, sem plateias para levantarem aplausos ou juízos de valor. A pessoa se faz unidade única, num único espaço do universo. É arcabouço particular de revelação daquilo que cada um gostaria que a realidade fosse, ao contraponto daquilo que ela é.

A solidão assusta um pouco porque não tem onde esconder os subterfúgios da autoconsolação. Não encontra espaços subterrâneos onde possa guardar o impulso de transferir aos outros os próprios atos cometidos; mas com o obscuro direito de condená-los sem clemência. Ela livra a pessoa de pensar com responsabilidade e, temporariamente, afastar-se da nobreza.

Porém, a solidão é o supremo extrato psíquico dos seres humanos, por   ser o palco mais ousado das fantasias de sua imaginação. Podemos, sem limites, sermos atores, diretores e produtores de nossos próprios filmes. Os que passam nas telas, outros inventam à inspiração ou experiências deles. A solidão abre a tela de nossa própria inspiração, de nossas conveniências, da idealização de todos os recursos materiais ou qualidades pessoais de que não dispomos e nuca disporemos.

Cumpre atirar pedras ou flores nesse microrganismo, mais extraordinariamente prolífico do que maligno. Patrocina uma guerra mundial através do derramamento de lágrimas, não de sangue; ridiculariza os conflitos políticos a ele alheios; convida a associação fraterna a ser anteparo do medo; recolhe as cortinas que escondiam as belezas do planeta; chama atenção para o quanto a gente presa a própria saúde e a vida das pessoas que se quer bem. E reforçou seus argumentos como vigorosa e pedagógica pandemia e não como as localizadas e discretas epidemias que, tantas vezes, já percorreram a história.

Só que a página contemporânea com que o Covid-19 se apresentou deixou nas entrelinhas dos tempos a riqueza da solidão. Então, parece que ele veio para, enfim, dar aos sonhadores todo espaço que necessitam para expressarem a sabedoria de suas imaginações.