Durante os martirizantes tempos passados nas praias, a parte mais atraente é o ruído do mar o qual, dependendo da localização da hospedagem, superpõe-se mesmo à barulheira das mais famintas constelações de mosquitos.

A benevolência universal, e dita como não hipócrita, chamou esse período do ano de férias, que é sinal de alegria a ser comemorada com muito barulho. Então, a muitos lançou no fatalismo do sofrimento obrigatório. Tanto é verdade que o período deve ser curto, e chegar em casa de volta é o melhor momento de todas essas férias.

Os veranistas de serra, por outro lado, são englobados pela soberania do silêncio. A diferença entre um e outro grupo parece não ser menor do que a existente entre o martírio e a carícia.

Assim, por aqui vivemos a baixa temporada, nosso período anual de pausa para meditação. Como estamos recolhidos a nós mesmos, não oferecemos eventos de maior peso e os curiosos ficam longe. Ainda por cima, diminui nossa população fixa. E o resultado é o silêncio, maior acontecimento gramadense de fevereiro.

Uma curiosidade original para esse ano de 2021 é que um dos mentores do nosso encantador silêncio é um agente maligno, de ferocidade universal, chamado Corona vírus. Mas, para nós, nem tanto.

É que Gramado para expor suas belezas e sua gloriosa paz de verão, não pode ser oculto por multidões que chegam para visitar Papai Noel.  E, sem este personagem, e as longas montagens artísticas levantadas em seu louvor, as pessoas esse ano não apareceram para acumular retratos em sus celulares.   

Foram substituídas por aqueles que, por muitos ou poucos anos a fio, fazem desse silêncio o bálsamo para os arranhões de seus labores cotidianos. Caminham por nossas ruas sendo revigorados e confortados pelo canto dos passarinhos, as cores dos jardins floridos e o perfume silvestre das árvores que teimamos em preservar.

Quando voltam, deixam a pressa como resíduo, ansiando para que o verão do ano que vem seja igual, apenas sem Covid  para empalidecer a paz de um raro encanto.