skip to Main Content

Colunista l romeoernestoriegel@gmail.com

As primaveras do inverno

A história registra Gramado como um dos mais antigos e bem sucedidos centros turísticos do Rio Grande do Sul. Na verdade, as memórias e os documentos relativos ao primeiro apogeu do município testemunham que a razão do sucesso de então era o frio. Mas, fiel às flutuações do modismo radical dos tempos, resolveu mudar também. E São Pedro, o padrinho do frio, da cerração e da geada ficou orgulhoso ao ver seu paternalismo substituído pela criatividade de seus afilhados.

A coragem veio da observação de que a geada era produto de qualquer lugar serrano, muitos deles de pálida notoriedade. Até parecia que éramos os únicos a considera-la como produto comercial de alto valor, já que a injetávamos como importante combustível, no sustento econômico e publicitário da indústria que garantia nosso  ganha pão: o turismo.

Outro pilar na manutenção daquelas épocas de ouro foi a neve. Sob os auspícios do valor que tem as coisas boas que só acontecem de vez em quando, ela era a esperança de conviver com paisagens tão lindas quanto os melhores cenários que ocupam a eternidade das lembranças. Foi quando os gramadenses praticaram a mais saudável mentira guardada em baixo dos tapetes que enfeitam suas glórias.

No inverno daqueles dias qualquer pedaço de nuvem que sobrevoava Gramado era sinal de neve iminente. Os meios de comunicação, sob destemidos ato de bajulação, espalhavam a todos os ventos, um prognóstico fabricado sob a mais colorida falsidade. Mas, como a neve não veio mais, Gramado teve que cobrir seus invernos com a verdade.

Vivendo novos tempos nossos empresários, contritos perante evidências impossíveis de dissimular, dobraram os joelhos e pediram socorro para a terra. E ela, em sua imensurável capacidade de perdoar, puxou a primavera para o mês de julho, pintou de flores e aromas os jardins e os arvoredos. Até fez as árvores que têm seu nome alegrarem nossas ruas, expondo floração temporona. E hoje, tanto a neve quanto a geada não nos fazem mais falta.

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Romeo Ernesto Riegel

Colunista l romeoernestoriegel@gmail.com

Essa matéria tem 0 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


The reCAPTCHA verification period has expired. Please reload the page.

Back To Top