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Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

Políticos linha 28

José Francisco Perini e Walter Bertolucci.

Existem diversas teorias para justificar as razões e os motivos que conduzem alguém para os caminhos  da vida pública. Minha reflexão está longe de se aprofundar no campo das ideologias que cada um dos personagens defendeu enquanto ocuparam as cadeiras do executivo e do legislativo, o que desejo é refletir sobre o legado que a ancestralidade curiosamente moldou nas terras da Linha 28.

 

Os personagens que trago para a reflexão desta edição são:

Walter Bertolucci, filho de Rosa Bordin e Fioravante Bertolucci;

José Francisco Perini, filho de Angelina Bordin e Francisco Perini;

Ivo Roque Tomazeli, neto de Pedro Bordin, este, irmão de Rosa e Angelina;

Gilnei Benetti, filho de Arlindo Benetti e Elvira Apollo Benetti.

 

Os três primeiros possuem laços consanguíneos. Além desta particularidade todos, em algum momento de suas vidas circularam pelos verdes gramados dos “potreiros”, comeram “guavirovas”, pequenas mas saborosas frutas de tons amarelado, tiveram suas “fundas” ou estilingues ou se banharam no riacho que serpenteia a localidade da Linha 28.

 

Acima, (E)José Francisco Perini e seu primo (D)Walter Bertolucci. Foto de acervo familiar. Proibida sua reprodução total ou parcial.

 

Vasculhando um pouco mais a micro historiografia do local, em algum momento de suas vidas ouviram um “óstia”, um “cramenta”,  palavras criadas pelo dialeto italiano que numa tradução bem rasa  é “uma chamada de atenção”  ou ainda um sonoro “stafermo”  usada para mandar uma criança ficar quieta, ou sentiram o sabor indescritível da polenta cujo milho era moído pelo “zio” Aurélio Broilo.

 

Esta forma singular de convivência contribuiu para a difusão da italianidade nas terras gaúchas iniciada no final do século XIX. Contudo, um pecado linguístico foi silenciosamente cometido: não nos foi dado o direito de assumir ou não a riqueza do dialeto italiano um dos maiores pilares da cultura imaterial.

Outro “pecado” histórico é deixar passar em branco, é deixar de lado seus personagens, é ignorar seus feitos ou menosprezar as tentativas, individuais ou coletivas, mesmo que pequenas. Quando ouço dos palanques a expressão “tradição”, “cultura”, “típico” entre outras, fico a pensar … Mas isso é tema para um outro momento, que espero refletir.

Se, de um lado, as placas nas avenidas ou nas ruas ou em praças da cidade – verdadeiros versículos – dentro da memória coletiva, há outros ingredientes vitais e necessários para a manutenção e preservação do passado. Contudo, para que esta preservação tenha resultado (pelo menos) histórico é necessário provocar o silêncio até que seus “gemidos” se transformem em sílabas.

 

Vereador Ivo Roque Tomazeli

 

Os personagens citados fazem parte dessa comunidade e carregam em sua genética valores sociais, culturais e políticos, fundamentais para o desenvolvimento da cidade. Seus feitos não jazem silenciosos, ao contrário, estão inseridos no que se vê ostensivamente pelo município. A esta altura, o leitor poderá perguntar os motivos pelos quais não foram aqui enumeradas as suas contribuições públicas.  A resposta é simples, esse trabalho, essa função e esse empenho é das escolas.

A investidura no cargo público de Walter, do Bepe (como era conhecido José Francisco Perini) , do Roque e do Gilnei  revela o nome do cidadão, o partido que cada um representou e suas responsabilidades frente à lei e a comunidade. Contudo, é no banco escolar que a moldagem do cidadão começa a tomar forma. Esses exercícios nascem a partir das análises, de estudos, de investigações e experiências de quem veio antes. Ali está, acreditem, a missão qualitativa da sociedade.

[…]

 

Vereador Gilnei Benetti

 

Desconheço levantamentos que informem os valores das diárias dos primitivos hotéis da cidade, desconheço o número de pés de videiras plantadas pelos colonos da Linha 28 nos anos 30, por exemplo.  Desconheço o número de picaretas usadas na abertura da RS 235 (Walter Bertolucci), assim como desconheço a quantidade de metros cúbicos de rochas, fruto das detonações na abertura da RS 115 (José Francisco Perini). Contudo, conhecendo mesmo que superficialmente a eloquência do discurso de Walter Bertolucci, a visão estratégica de José Francisco Perini, as experiências de vida de Ivo Roque Tomazeli e o olhar de Gilnei Benetti em relação a panfletagem que poluía a cidade, cada um deles  “emprestou” seu nome, sua reputação e inegavelmente suas origens – a Linha 28 – para o desenvolvimento do município.

Pinçar, por menor que sejam os fatos e trazê-los para o presente é um forte antídoto para evitar que a formação de rizomas quantitativos se espalhem pois toda sociedade construída sobre os pilares quantitativos sufoca, ao longo do tempo, seu cidadão. Isso acontecerá se nada for dito, se nada for feito […]. Conhecer aqueles que construíram a cidade que hoje tanto nos orgulhamos é um dos mais eloquentes sintomas de pertencimento e de cidadania.

Confesso que quanto mais reviro as pedras da Linha 28 mais instigante se torna a sua intrincada micro história. Ali a flora se torna mais exuberante, mais cuidadosa foi a mão que firmou o pincel que desenhou as pequenas propriedades. É onde se vê o sol da manhã vestindo de dourado os morros na direção do centro de Gramado. Logo no final da tarde,        “piano, piano” o dourado desaparecerá. Foi vendo este ir e vir da natureza que os cidadãos Walter Bertolucci, José Francisco Perini, Gilnei Benetti e Ivo Roque Tomazeli legaram seus feitos enquanto homens públicos.

A força de trabalho desta comunidade, coadjuvada pelas demais almas, foi peça fundamental para que Gramado saísse da condição de Povoado para assumir a posição de Vila, em 31.03.1938 e, dezesseis anos depois, em 13 de dezembro de 1954 torna-se município. E, em setenta anos encima a lista dos destinos turísticos mais desejados.

Por uma questão de lealdade com o passado, trago para esta reflexão toda a comunidade de Gramado seja aquela investida nos cargos públicos ou não. Deixá-los fora seria um crime.

 

Casagrande

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Gilnei Casagrande

Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

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