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Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

Unidos pela fraternidade e confiança recíprocas.

Primeira Parte.

Francisco Perini, filho de imigrantes italianos saiu da casa paterna ainda jovem e fincou seu marco na Linha 28, colônia de Gramado ao casar com Angela (ou Angelina) Bordin, da mesma localidade, no dia 30 de maio de 1916. Do outro lado, Demétrio Pereira dos Santos, de família taquarense, se instala com uma casa de comércio no Povoado de Gramado nas imediações das atuais Avenidas das Hortênsias e Borges de Medeiros. É muito provável que o crescimento do Povoado, que exigia cada vez mais o consumo de produtos primários, tenha sido o elo que aproximou estes dois personagens cujos nomes estão marcados nas ruas de Gramado. O primeiro é a rua que leva ao Lago Negro e o segundo é na Av. Central, próximo a uma loja de departamentos.

 

Personagens Políticos

Gastão Pereira dos Santos, irmão mais novo de Demétrio e de Adalberto  tornou-se  “persona non grata” dentro da sua própria caserna, necessitando de proteção especial face à perseguição imposta pelo comando hierárquico.

Demétrio e Francisco eram de posição sociais, culturais e políticas diferentes o que não desmerece um e outro (um, colono e analfabeto; outro letrado e comerciante…) mas serve para colocar cada um em suas molduras morais, princípio relevante para quem examina a história política como é o nosso assunto.

 

Francisco Perini em sua propriedade e seu meio de transporte até os anos 60.

 

Estratégias: Cumplicidade entre dois adversários políticos.

Tudo leva a crer que, se Gastão fosse “protegido” por alguém, esse “alguém”  não seria um um correligionário. A estratégia de Demétrio para proteger seu irmão (moral), deu certo. Este, pede a Francisco que o protegesse. Assim o fez sem questionar os riscos (moral).

Francisco leva Gastão para sua casa na Linha 28. Talvez esse episódio tenha sido uma das poucas atitudes civilizadas, conhecidas, onde a fraternidade falou mais alto nas terras de Gramado onde os ânimos políticos tendem a “estremecer  as estruturas sócio-política do município a cada período”.

Não conheci Demétrio, mas conheci Francisco e Gastão, este em sua residência em São Gabriel. Francisco foi meu nonno com quem convivi na minha primeira infância e juventude. Dedicado. Não tinha formação escolar o que permitia dividir a sua curiosidade com alguém que lesse o jornal Correio do Povo do qual era assinante, e a devoção ao seu rádio, um Telefunkem que levava horas para “aquecer” as válvulas. Mais tarde a televisão. Homem educado, gentil e hospitaleiro. Homem alto, um daqueles sujeitos que por onde passava era impossível não perceber sua presença. Sempre que ia ao centro da cidade para cortar os cabelos ou aos domingos na missa das dez, usava uma “fatiota” com gravata cujo nó era feito por ele. Sujeito que sempre atraiu as pessoas pela sua cordialidade e simpatia, estivesse onde estivesse. Nos deixou cedo, com oitenta anos.

Neste episódio, não dá para deixar minha nonna Angelina fora deste passado. Angelina, creio eu, nunca levantou a voz para ninguém. Baixinha, carismática e dona de uma mão para cozinhar inquestionável. Cerzia e remendava as roupas do dia a dia com precisão. Usou um coque preso com dois grandes grampos cruzados na nuca durante toda a sua vida. Foi “mãe” de Gastão por muitos anos, dedicando atenção, carinho e proteção”, segundo relatos de sua filha Nayr Adelina Perini, outra personagem importante neste capítulo. Pessoas que amamos, mesmo longevas, sempre nos deixam cedo.Partiu no início dos anos setenta.

 

Francisco e Angelina Perini – Bodas ano 1966.

 

Em 19 de dezembro de 1930 nasce Nayr, quinta filha do casal. Nayr era uma mulher alta, disposta, delicada, elegante e com um dom para fazer doces como poucas, sem contar sua arte no tricô. Era conhecida por todos e em toda a comunidade como “Tia Nayr”. Protagonista de uma devoção a Deus incondicional. Seus sobrinhos eram seus filhos. Graças a sua memória é que hoje dou voz a esse passado. Também nos deixou cedo.

Quis o destino que Angelina e Francisco Perini escolhessem Gastão Pereira dos Santos, um jovem de 20 anos para ser padrinho de batismo de Nayr.

 

Batizado de Nayr Adelina Perini no colo de sua mãe, Angelina. À esquerda Gastão Pereira dos Santos. À direita as filhas Josephyna, Iria e Irma. no centro, José Francisco Perini entre seu pai Francisco Perini e o sacerdote José Guilherme Maschio.

 

Para cumprir com sua palavra frente a Demétrio (moral), Francisco, ciente da situação política, usou de uma estratégia singular para não dizer cinematográfica: abriu um alçapão no assoalho que dava para o porão da casa, embaixo, uma pipa vazia era o abrigo do perseguido para ficar longe dos olhos dos aliados do dono da casa. Esse foi o esconderijo de Gastão para as horas de risco, tanto de um quanto de outro.

 

 Alçapão. Foto autorizada pelo Borgo28gramado.

 

O Passado Tem o Momento Certo para ser Desvendado.

Em meados de 2.000 através de uma amiga que trabalhou na agência do Banco do Brasil em Santo Ângelo, que ao saber deste passado, comentou que Gastão vivia na cidade e que, apesar da idade, estava bem de saúde e lúcido. Antes de Nayr saber do fato, fizemos contato com um sobrinho neto de Gastão, agendamos a visita e partimos, Joanete Carniel, minha prima, Nayr e eu. Com seus setenta e poucos anos, virou uma criança ao saber que a levaríamos visitar o padrinho que não conhecia. O passado veio à tona e com ele emoções. O abraço de ambos foi poético.

 

Nayr Adelina Perini. Foto anos 60.

 

A memória de Gastão e de Nayr se transformaram num filme de longa metragem. Enquanto as lágrimas de um rolava, a mão do outro acariciava. Os detalhes do cotidiano narrados por  Gastão visitavam a grande sala onde fomos recebidos. Ao retornamos no dia seguinte as cenas se potencializam mais do que no primeiro dia. Fiz uma única pergunta a Gastão – ” Por quanto tempo o senhor ficou na casa do meu avô? – “Quando saí de lá, ela” – apontando para Nayr, “já caminhava”. Meu irmão Demétrio foi me buscar numa madrugada”.” A tua mãe”, olhando para Nayr, ” passou o café e comemos pão, queijo e linguiça”. ” Nunca mais voltei para Gramado, mas tenho uma fotografia do seu Perini com o Adalberto, meu irmão”, finalizou.

Gastão Pereira dos Santos faleceu em Santo Ângelo dias após completar cem anos.

 

Sinval Sebastião Duarte Guazzelli, governador do RS; Adalberto Pereira dos Santos, vice-presidente da República e Francisco Perini. Jantar oferecido no Hotel Serra Azul. FEARTE. Data: 17.05.1975

 

Encerro aqui a primeira parte deste passado repleto de perigos, incertezas, exemplos e emoções seladas pelo carimbo da amizade.

 

P.S. Infelizmente as fotos do encontro entre Nayr e Gastão que estavam em meu computador, se perderam

Casagrande

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

 

Gilnei Casagrande

Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

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