skip to Main Content

Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

Pelas Terras da Linha 28

Antes de mergulhar na matéria sobre a Colônia da Linha 28, antecipo minha gratidão a Tela Tomazeli que assina com louvável merecimento, a revista online Gramado Magazine por trazer aos seus leitores e para a cidade em si, flashes do passado.

Nas sequencias das publicações, o leitor perceberá minha devoção incondicional ao assunto. Falar dos nossos Colonos, em especial daqueles que povoaram as terras da Linha onde nasci é acima de tudo um gesto civilizatório. O Colono, seja de que etnia ou parte geográfica que for, criou uma nova civilização pois impôs seus hábitos e costumes e um dialeto. Estudos sobre a imigração italiana, a qual me dedico, preenchem quilômetros de prateleiras das bibliotecas das universidades, em especial da Universidade de Caxias do Sul. Nas terras de Gramado, com respeito ao que já foi produzido, merece mais atenção. Em 2006, concluí o Mestrado na PUC/RS e ali procurei mapear os italianos nas terras de Gramado. Foi um trabalho de pesquisa árduo, porque a parca documentação há muito se perdeu. Utilizei a fonte oral como metodologia. Contudo, ainda há muito o que trazer à tona.

Inegavelmente o turismo na região tem favorecido no desenvolvimento das Colônias de Gramado, em especial.

Para que o leitor participe desta viagem é importante, de inicio, fazer uma distinção entre “Linha”, “Colônia” e “Colono”. Poucos são os municípios que ainda mantém na sua cartografia porém a expressão “Linha” que aparece na Lei de Terras nº 601, de 18.09.1850. Foi, no passado distante, a forma de tornar factível as medições das terras…(um traçado em Linha reta…). Quanto a palavra Colônia, evoca o sentido econômico da ocupação das terras e Colono é aquele que retira das terras ocupadas a sua sobrevivência.

As primeiras famílias (de origem italiana), a ocuparem as terras da Linha 28 foram: Bordin no final do século XIX, Cappeletti, Perini, Benetti, Bedim, Maístro e Peteffi no inicio do século XX. Este desenvolvimento, essa imersão e estas experiências passarão por aqui.

Assino a coluna, com relativo orgulho, como Hospitalidade Gramado, fruto de uma convivência junto a casa de meu avô materno que chegou na Linha 28 em 1916 (data do casamento com Angelina Bordin, esta sim nascida nesta localidade em 1894), Francisco Perini onde hospitalidade sempre foi a tônica das relações, sejam as familiares ou com quem por lá passou. Por fim, lembro ao leitor que nos estudos históricos, não se resgata o passado e sim busca-se reconstruí-lo pois sempre é possível um fato ou documento novo que  complemente.

Gilnei Ricardo Casagrande

 

Memórias Guardadas no Estômago

Uma visita inesperada chegou quando minha nonna Angelina dava as últimas “mescolada” na polenta.
Rapidamente Angelina pediu a sua filha Francica que fosse buscar um punhado de “cigole “…enquanto isso pegou uma caçarola e colocou uma concha de banha…lavada as cebolas jogou-as sem tirar a primeira camada na banha que ardia, jogou um punhado de toucinho picado e fritou…o aroma ainda dá para sentir.
Polenta despejada no tabuleiro…
Como o guisado era de quantidade franciscana, jogou as cebolas dentro, deu uma revisada na panela que foi colocada na mesa, sem muita frescura. A visita, uma senhora, comeu as cebolas com o molho e deixou o guisado na panela.
Hoje lembrei deste episódio…
Cebolas em italiano penínsular é “cipola”, mas virou “cigole” no dialeto, hoje literalmente perdido, o que lastimo enquanto fonte de cultura imaterial.
☆Mescola” na língua italiana é o verbo “mexer” o que virou no utilitário doméstico, a “mescola”, um porrete de madeira falquejado que serviu para mexer a polenta.

 

Bolinhos de batata, polenta e churrasco

Achei esta fotografia do meu avô Francisco Perini com seu meio de transporte da Linha 28 ao centro da cidade. Muito andei na sua garupa. Mas isso é irrelevante. Com a Festa da Colonia esbanjando números de vistantes e bolinhos de batatas temos que relembrar algumas evidencias disfarçadas em nosso meio. O Gaúcho, até então afastado do Imigrante, seja qual tenha sido a etnia, teve um papel preponderante em alguns hábitos. Quem não tem em sua casa ou apartamento uma churrasqueira? Quem não teve, num passado mais distante um parente cuja vestimenta tenha sido botas, bombachas e chapéu de aba larga e um lenço branco ou vermelho ou os dois entrono do pescoço? Investiguem os livros de atas dos CTG’s e verão sobrenomes alemães e italianos ao lado de lusos descendentes em numeros interessantes. Sobre o chimarrão vou pular. E o Charque? Esses hábitos que não estavam nas bagagens dos alemães nem dos Italianos, mas hoje disseminados, reforçam a tese de que estes homens e mulheres de falas estranhas foram recebidos com hospitalidade, foram aceitos e por terem sido aceitos absorveram hábitos, usos e costumes.

O Gaúcho é hospitaleiro. Paixão Cortes legou a hospitalidade. Mário Quintana através da sua poesia, revelou esta aproximação e, Teixeirinha com seus discípulos fizeram muitos mais descendentes de alemães e italianos rodopiarem uma rancheira do que músicas afetas as duas etnias como a Tarantela dos italianos. O velho e esquecido valo do churrasco, os espetos de madeira talhados pelos Capeletti para as festas de São Valentin ali no 28 são para mim evidencias incontestáveis desta integração. O churrasco, fiel companheiro dos fins de semana na casa de meu nonno era o mesmo dos grandes festejos serranos de hoje onde ainda divide os sotaques entre uns e outros o que enriquece a corrente cultural. Há muito mais para refletir quando a Hospitalidade, como tema transversal,revela peculiaridades de nossos patrimônios imateriais.

 

Dirceu Pastori

Amigo com um Dom especial; sua voz…deu voz as lembranças e saudades deixadas por quem cumpriu com sua missão na Capela de São Valentim, Linha 28. “Adeste Fidélis”. Meu sonho de realizou. Obrigado Dirceu Pastori

 

Agricultura

Plantação de tomates. (anos 40), no primeiro plano aparecem os personagens, Irma Perini Zanatta, filha de Francisco e Angelina Perini e seu marido Orestes Zanatta. O terceiro personagem é Alcides Capelletti.

 

Fotos: Curadoria Gilnei Casagrande

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Gilnei Casagrande

Colunista l casagrandegilneiricardo@gmail.com

Essa matéria tem 0 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


The reCAPTCHA verification period has expired. Please reload the page.

Back To Top