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Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

Vós sois o sal da terra – A serviço do mundo

(5,13-16)

5º Domingo do Tempo Comum

Desde cedo, Jesus preocupou-se em evitar que o grupo de seus discípulos se transformasse numa espécie de seita, fechada e esotérica, como havia naquela época. Assim era a comunidade dos essênios, às margens do mar morto, com um fanatismo tão radical, a ponto de se considerarem filhos da luz, relegando o resto da humanidade à condição de filhos das trevas.

A comunidade dos discípulos de Jesus, pelo contrário, fora orientada a ter uma atitude diferente: haveria de ser “sal da terra e luz do mundo”. Sal e luz, segundo um autor muito antigo, eram as duas coisas imprescindíveis para qualquer ser humano sobreviver. Portanto, a presença dos discípulos, na história humana, seria semelhante à presença destes dois elementos indispensáveis: sal e luz.

O sal é imagem do que purifica, dá gosto, conserva. Dando testemunho do Evangelho pela prática das boas obras e levando outras pessoas a fazerem o mesmo, os discípulos estariam impedindo que a corrupção se apoderasse da humanidade e também ajudariam as pessoas a se manterem sintonizadas com o projeto de Deus.

De que maneira os discípulos haveriam de ser luz do mundo? Testemunhando a revelação de Deus, em Jesus Cristo, e transmitindo às pessoas essa luz divina, de forma a arrancá-las das trevas do erro e do egoísmo. Mais do que com palavras, será com o exemplo de vida que os discípulos levarão a humanidade a render glória ao Pai do céu.

Se o sal perder o gosto:

Poucos escritos podem sacudir hoje o coração dos cristãos com tanta força como o pequeno livro de Paul Evdokimov; O amor louco de Deus. Com fé ardente e palavras de fogo, o teólogo de São Petesburgo põe a descoberto nosso cristianismo rotineiro e satisfeito. Diz ele: “Os cristãos fizeram todo o possível para esterilizar o Evangelho”, dir-se-ia que o submergiram num líquido neutralizante. Tudo o que impressiona, supera ou inverte é amortecido. Assim, uma vez convertida em algo inofensivo, esta religião nivelada, prudente e razoável, o ser humano não pode senão vomitá-la. A Igreja aparece aos seus olhos como “um organismo vivo da presença real de Cristo”, mas como uma organização estática e “um lugar de auto nutrição”. Os cristãos não tem o sentido da missão, e a fé cristã “perdeu estranhamente sua qualidade de fermento”.

Segundo esse teólogo, os cristãos perderam o contato com o Deus vivo de Jesus Cristo e se perdem em discussões de ordem doutrinal. Confunde-se a verdade de Deus com as fórmulas dogmáticas que na realidade só são “ícones” que convidam a abrir-nos ao Mistério santo de Deus. O cristianismo se desloca para o exterior e o periférico, quando Deus habita no profundo. Busca-se então um cristianismo rebaixado e cômodo. Como dizia o pensador Marcel More, “os cristãos encontraram a maneira de sentar-se, não sabemos como, de forma confortável na cruz”.

E quando na Igreja já não brilha mais a vida de Jesus, dificilmente se constata alguma diferença com o mundo. A Igreja “se converte em espelho fiel do mundo”, que ela reconhece como “carne de sua carne”. Na Igreja falta santidade, fé viva, contato com Deus, faltam testemunhas vivas do Evangelho de Jesus Cristo.

Onde está o sal?

Com uma pincelada não isenta de humor, Jesus define o que são seus seguidores, com traço para o qual nós cristãos provavelmente prestamos pouca atenção. Jesus vê seus discípulos como homens e mulheres chamados a ser “sal da terra”, pessoas que colocam sal na vida: “Vós sois o sal da terra”. Mas se o sal perder seu gosto, com o que se há de salgar? O simbolismo religioso do sal, muito espalhado no mundo antigo aparece coo imagem do que purifica, dá sabor, do que conserva a vida aos alimentos.

Provavelmente, as pessoas simples que escutavam a Jesus captavam em toda a sua frescura o simbolismo encerrado no sal, e entendiam que o Evangelho pode pôr na vida do ser humano um sabor e uma “graça” desconhecida. O teólogo norte-americano Harvey Cox dizia há anos que o homem ocidental “ganhou todo o mundo, perdeu sua alma. Comprou a prosperidade ao preço de um vertiginoso empobrecimento de seus elementos vitais”. O tédio, o aborrecimento, o sem-sentido da vida parecem ameaçar a muitos. As raízes deste fenômeno, sem dúvida, são complexas. Parece que a sociedade industrial nos tornou mais produtivos, metódicos e organizados, mas também menos festivos, lúdicos e imaginativos. As análises dos observadores nos falam que o caráter festivo, a ternura, a fantasia, a criatividade ou o prazer de compartilhar “se acham em estado lamentável”.

Onde está o sal dos que dizem ter fé? Onde há crentes capazes de fazer seu entusiasmo contagiar os demais? Será que a nossa fé não perdeu seu sabor? Será que não caímos numa “anemia interior” que nos impede experimentar e viver a vida de cada momento de maneira mais intensa, feliz e fecunda? Precisamos redescobrir que a fé é sal que pode fazer-nos viver tudo de maneira nova: a convivência e a solidão, a alegria e a tristeza, o trabalho e a festa. Uma das tarefas mais urgentes de hoje e de sempre é conseguir que a fé chegue aos seres humanos como “boa notícia”.

Para ser “sal da terra”, o importante não é o ativismo, a agitação, o protagonismo superficial, mas “as boas obras” que nascem do amor e da ação do Espírito em nós.

 

Façamos nossa oração:

Querido Pai, que o testemunho das nossas boas obras sirva para levar para ti a humanidade, de modo que seja preservada da corrupção e do erro. Amém

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Padre Ari Antonio da Silva

Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

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