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Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo

(Lc 23,35-43)

Encerramento do Ano Litúrgico

Zombar ou invocar:

Lucas descreve com acentos trágicos a agonia de Jesus no meio de zombarias e brincadeiras dos que o cercavam. Ninguém parece entender sua entrega. Ninguém captou seu amor aos últimos. Ninguém viu em seu rosto o olhar compassivo de Deus para o ser humano.

A certa distância as “autoridades” religiosas e o “povo” zomba de Jesus, fazendo caretas. “Salvou-se a outros, salve-se a si mesmo, se é o Messias. Lucas chega a repetir três vezes a zombaria: “Salva-te a ti mesmo”. Que Messias pode ser este, se não tem poder para salvar-se? Que tipo de “Rei” pode ser? Como irá salvar seu povo da opressão de Roma, se não pode escapar dos quatros soldados que vigiam sua agonia? Como irá Deus estar de seu lado, se não intervém para libertá-lo?

De repente, no meio de tanta zombaria, uma invocação: “Jesus lembra-te de mim quando chegares ao teu reino”. É o outro delinquente que reconhece a inocência de Jesus, confessa sua culpa e, cheio de confiança no perdão de Deus, só pode a Jesus que se lembre dele. Jesus lhe responde imediatamente: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Agora estão os dois agonizando, unidos no desamparo e na impotência. Mas hoje mesmo estarão os dois juntos desfrutando a vida do Pai.

O que seria de nós, se o Enviado de Deus buscasse sua própria salvação escapando dessa cruz que o une para sempre a todos os crucificados da história? Como poderíamos crer num Deus que nos deixasse mergulhados em nosso pecado e em nossa impotência diante da morte? Há também hoje os que zombam do crucificado. Não sabem o que fazem. Não o fariam com Martin Luther King. Estão zombando do homem mais humano que a história nos deu. Qual é a postura mais digna diante desse crucificado, encarnação suprema da proximidade de Deus ao sofrimento do mundo: zombar dele e invocá-lo.

 

Mártir fiel:

Nós cristãos atribuímos ao Crucificado diversos nomes: redentor, salvador, rei, libertador. Podemos nos aproximar dele agradecidos. Ele nos resgatou da perdição. Podemos contemplá-lo comovido: ninguém nos amou assim. Podemos abraçá-lo para encontrar forças no meio de nossos sofrimentos e dores. Entre os primeiros cristãos Ele era chamado também “mártir”, ou seja, “testemunha”. Um escrito chamado Apocalipse, redigido por volta do ano 95, vê no Crucificado o “mártir fiel”. Da cruz, Jesus se nos apresenta como testemunha fiel do amor de Deus e também de uma existência identificada com os últimos. Não devemos esquecer-nos disso.

Ele se identificou tanto com as vítimas inocentes que terminou como elas. Sua palavra incomodava. Tinha ido longe demais ao falar de Deus e sua justiça. Nem o Império nem o templo podiam consentir nisso. Ela preciso eliminá-lo. Antes que Paulo começasse a elaborar sua teologia da cruz, entre os pobres da Galileia vivia-se talvez esta convicção. “Ele morreu por nós, “por defender-nos até o fim, “por atrever-se a falar de Deus como defensor dos últimos.

Ao olhar para o crucificado deveríamos recordar instintivamente a dor e a humilhação de tantas vítimas desconhecidas que, ao longo da história sofreram, sofrem e sofrerão, esquecidas por quase todos. Seria uma zombaria beijar o crucificado, invoca-lo ou adorá-lo enquanto vivemos indiferentes a todo sofrimento que não seja o nosso.

O crucifixo está desaparecendo de nossos lares e instituições, mas os crucificados continuam ali. Podemos vê-los todos os dias em qualquer telejornal. Precisamos aprender a venerar o crucificado não num pequeno  crucifixo, mas as vítimas inocentes da fome e das guerras, nas mulheres assassinadas por companheiros, nos que se afogam quando suas balsas afundam. Confessar o crucificado não é apenas fazer grandes procissões de fé. A melhor maneira de aceita-lo como Senhor e Redentor é imitá-lo, vivendo identificados com os que sofrem injustamente.

 

Carregar a cruz:  

O relato da crucificação nos lembra a nós, seguidores de Jesus, que seu reino não é um reino de glória e de poder, mas de serviço, amor e entrega total para resgatar o ser humano do mal, do pecado e da morte. Habituados a proclamar a “vitória da cruz”, corremos o risco de esquecer que o Crucificado nada tem a ver com um falso triunfalismo que esvazia de conteúdo o gesto mais sublime de serviço humilde de Deus às criaturas. A cruz não é uma espécie de troféu que mostramos aos outros com orgulho, mas o símbolo do Amor crucificado de Deus, que nos convida a seguir seu exemplo.

Cantamos, adoramos e beijamos a cruz de Cristo porque, no mais profundo de nosso ser, sentimos a necessidade de dar graças a Deus por seu amor insondável, mas sem esquecer que a primeira coisa que Jesus nos pede insistentemente não é beijar a cruz, mas carregá-la.

Para nós, seguidores de Jesus, reivindicar a cruz é aproximar-nos prestativamente dos crucificados, introduzir justiça onde se abusa dos indefesos, reclamar compaixão onde só existe indiferença diante dos que sofrem. Isto nos trará conflitos, rejeição e sofrimento. Será nossa maneira humilde de carregar a cruz de Cristo.

O teólogo católico Johann Baptist Metz aponta para o perigo de que a imagem do crucificado esteja ocultando de nós o rosto dos que vivem hoje crucificados. No cristianismo dos países do bem-estar está ocorrendo de acordo com ele, um fenômeno muito grave: “A cruz já não intranquiliza ninguém, não tem nenhum aguilhão; perdeu a tensão do seguimento de Jesus não chama a nenhuma responsabilidade, mas exonera dela”.

Finalmente cumpre frisar em nossa meditação de hoje que a esperança dos cristãos brota da confiança total no Deus de Jesus Cristo. Toda mensagem e o conteúdo da vida de jesus, morto violentamente pelos homens há algo maior, ou seja, Ele foi ressuscitado por Deus para a vida eterna, e, portanto, nos leva a convicção: “A morte não tem a última palavra. Existe um Deus empenhado em que seus filhos e filhas conheçam a felicidade total por cima de tudo, inclusive por cima da morte. Podemos confiar nele.

É precisamente a oração do malfeitor crucificado junto com Jesus que no momento de morrer, aquele homem não encontra nada de melhor do que confiar-se inteiramente a Deus e a Cristo. “Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu Reino. E ouve essa promessa que tanto incomoda o crente: “Asseguro-te: hoje estarás comigo no paraíso”.

 

Façamos nossa oração:

Querido Pai do céu, nessa solenidade de Cristo Rei do Universo queremos te agradecer o que fizeste para nós, através de teu Filho Jesus, que não hesitou em dar sua vida em nosso favor. Perdoa nossas faltas, mas assim, como o bom ladrão lembra-te e nós em teu Reino. Amém.

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Padre Ari Antonio da Silva

Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

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