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Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

A busca dos desgarrados

(Lc 19,1-10)

31º Domingo do Tempo Comum

A missão de Jesus consistiu em buscar os filhos de Deus desgarrados pelo egoísmo e pelo pecado. Missão de reconduzir os filhos ao Pai, reuni-os pelos vínculos do amor e do afeto. Missão de reconciliar quem rompeu com o Pai, afastando-se da casa paterna.

Daqui se entende o interesse e o carinho de Jesus para com os pecadores, os marginalizados por um sistema religioso cruel, vítimas de um juízo inclemente. Sua ação orienta-se numa direção contrária a estes esquemas. Ele vai “buscar e salvar quem estava perdido”. É o pastor, preocupado com a sorte de cada uma das ovelhas, especialmente as que vagam, longe do rebanho.

Esta preocupação de Jesus era motivo de escândalo para os legalistas, empenhados na observância cega de certas normas. Por isso, a alegria de Zaqueu e os claros sinais de sua conversão contrastam as críticas dos que julgavam inconveniente ter Jesus ido hospedar-se na casa de um pecador.

Zaqueu, homem rico e fraudulento, funcionário dos dominadores romanos, insensível em relação aos pobres, fechado em seu egoísmo, estava na mira de Jesus. Para sua surpresa, o Mestre mandou-o descer da árvore e comunicou-lhe que iria hospedar-se em sua casa.

O desejo que Zaqueu tinha de ver Jesus era um bom sinal. Jesus soube aproveitá-lo, e conquistou-o para o Reino.

 

Salvar o que está perdido:

Lucas narra o episódio de Zaqueu para que seus leitores conheçam melhor o que podem esperar de Jesus: o Senhor, que eles invocam e seguem nas comunidades cristãs, “veio procurar e salva o que estava perdido”. Não devem esquecer disso. Ao mesmo tempo, seu relato ajuda a responder à pergunta que não poucos trazem em seu interior que, em boa parte, pus a perder? Que passos posso dar?

Zaqueu é descrito com dois traços que definem com precisam sua vida. “É chefe de publicanos” e “rico”. Em Jericó todos sabem que ele é um pecador. Um homem que não serve a Deus, mas ao dinheiro. Sua vida, como tantas outras, é pouco humana. No entanto, Zaqueu “procura ver Jesus”. Não é mera curiosidade. Quer saber quem Ele é, o que se encerra neste profeta que tanto atrai pessoas. Não é tarefa fácil para um homem instalado em seu mundo. Mas este desejo de Jesus vai mudar sua vida.

O homem terá que superar diferentes obstáculos. É “baixo de estatura”, sobretudo porque sua vida não está motivada por ideais muito nobres. As pessoas são outro impedimento: ele terá que superar preconceitos sociais que lhe tornam difícil o encontro pessoal com Jesus.

Mas Zaqueu prossegue sua busca com simplicidade e sinceridade. Corre para adiantar-se à multidão e sobe numa árvore como uma criança. Não pensa em sua dignidade de senhor importante. Só quer encontrar o momento e o lugar adequado para entrar em contato com Jesus. Quer vê-lo. É então que ele descobre que também Jesus o está procurando, porque, ao chegar àquele lugar, fixa nele seu olhar e lhe diz: “O encontro será homem mesmo em tua casa de pecador”. Zaqueu desce e o recebe em sua casa, cheio de alegria. Há momentos decisivos em que Jesus passa por nossa vida porque quer salvar o que nós estamos pondo a perder. Não devemos deixá-los escapar.

Lucas não descreve o encontro. Só fala da transformação de Zaqueu. Ele muda a maneira de olhar a vida: já não pensa só em seu dinheiro, mas no sofrimento dos outros. Muda seu estilo de vida: fará justiça aos que explorou e compartilhará seus bens com os pobres. Mais cedo ou mais tarde, todos nós corremos o risco de “instalar-nos” na vida, renunciando a qualquer aspiração de viver com mais qualidade humana. Todos nós precisamos saber que um encontro mais autêntico com Jesus pode tornar nossa vida ais humana e mais solidária.

 

Acolher, escutar, acompanhar:

Para Jesus, Zaqueu é uma pessoa perdida. Precisamente por isso procura-o com seu olhar, chama-o pelo nome e lhe oferece sua amizade pessoal: irá jantar em sua casa, ouvi-lo-á, poderão dialogar. Acolhido, respeitado e compreendido por Jesus, aquele homem decide reorientar a vida.

A atuação de Jesus é surpreendente. Ninguém vê nele o representante da Lei, mas o profeta da compaixão, que acolhe a todos com o amor entranhável do próprio Deus. Não parece preocupado com a moral, mas com o sofrimento concreto de cada pessoa. Não é visto obcecado em defender sua doutrina, mas atento a quem não consegue viver de maneira sadia.  Em certos setores da Igreja está se vivendo com nervosismo e até com crispação a perde de poder e espaço social. No, entanto, não é uma desgraça que precisamos lamentar, mas uma graça que pode nos reconduzir ao Evangelho.

Já não podemos ser uma Igreja poderosa, segura e autoritária que pretende “secretamente” impor-se a todos. Seremos uma Igreja mais simples, vulnerável e fraca. Não precisaremos preocupar-nos em defender nosso prestígio e poder. Seremos mais humanos e sintonizaremos melhor com os que sofrem. Estaremos em melhores condições para comunicar o Evangelho.

Será cada vez mais inútil endurecer nossa pregação e intensificar nossas condenações. Teremos que aprender de Jesus a conjugar três verbos: Acolher, escutar e acompanhar. Descobriremos que o Evangelho é comunicado pelos crentes em cuja vida resplandece o amor compassivo de Deus. Sem isto, todo o resto é inútil. O Deus cristão é um Deus que procura reavivar e reconstruir o que nós podemos estragar e pôr a perder. Deus não é carga pesada, mas vigor e estímulo para viver corretamente.

 

Façamos nossa oração:

Espírito que reconduz os pecadores, leva-nos para junto de Jesus, e ajuda-nos a ensinar aos pecadores o caminho que conduz a ele. Amém

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Padre Ari Antonio da Silva

Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

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