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Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

Deus ou o dinheiro

(Lc 16,1-13)

25º Domingo Tempo Comum

A parábola evangélica pode soar estranha aos nossos ouvidos. Partindo da esperteza de um administrador claramente desonesto, Jesus tira lições de vida para o discípulo do Reino. Afinal, a comparação tem sua razão de ser.

O administrador age como um capitalista de nossos tempos. Conhece a maneira de garantir sua fonte de lucro e, prevendo dificuldades futuras, toma as providências necessárias para evitar o fracasso. Suas estratégias são eficientes, por serem bem estudadas. Seria arriscado dar um passo em falso e colocar tudo a perder. Pouco lhe importa considerações de caráter ético. Se é preciso ser desonesto e cometer injustiça para atingir o objetivo, não lhe interessa! Os meios justificam-se pelo fim a ser alcançado.

Jesus quer inculcar nos discípulos esta mesma disposição, em se tratando de dispor-se para alcançar o Reino. Evidentemente, os elementos de desonestidade ficam fora de cogitação. O ponto focalizado, na atitude do administrador, é sua decisão inabalável, sua capacidade de encontrar a forma adequada de ver concretizado seu intento, a coragem de enfrentar os riscos, o otimismo que não permite pôr em dúvida o seu projeto.

Jesus constata que os filhos deste mundo são muito mais espertos do que os filhos da luz. Aqueles têm muito a ensinar a estes últimos, pois lhes falta determinação na busca de seus objetivos.

 

Jesus fala aos ricos:

A sociedade que Jesus conheceu era muito diferente da nossa. Só as famílias poderosas de Jerusalém e os grandes proprietários de Tiberíades podiam acumular moedas e ouro e prata. Os camponeses mal e mal podiam conseguir alguma moeda de bronze ou cobre, de escasso valor. Muitos viviam sem dinheiro, trocando produtos num regime de pura subsistência.

Nesta sociedade, Jesus fala do dinheiro com uma frequência surpreendente. Sem terras nem trabalho fixo, sua vida itinerante de profeta dedicado à causa de Deus permite-lhe falar com total liberdade. Por outro lado, seu amor aos pobres e sua paixão pela justiça de Deus os urgem a defender sempre os mais excluídos. Jesus fala do dinheiro com uma linguagem peculiar. Chama-o espontaneamente de “dinheiro injusto” ou “riquezas injustas”. Ao que parece, Ele não conhece “dinheiro limpo”. A riqueza daqueles poderosos é injusta, porque foi amealhada de maneira injusta e porque a desfrutam sem compartilhá-la com os pobres e famintos. O que podem fazer os que possuem estas riquezas injustas? Lucas conservou umas palavras curiosas de Jesus. “Eu vos digo: conquistai amigos com o dinheiro injusto para que, quando vos faltar, vos recebam nas moradas eternas”.

Jesus chega a dizer assim aos ricos: “Empregai vossa riqueza injusta em ajudar os pobres; conquistai sua amizade compartilhando com eles vossos bens. Eles serão vossos amigos e, quando no final da vida o dinheiro já não vos servir para nada, eles vos acolherão na casa da Pai”. Dito com outras palavras: a melhor forma de “lavar o dinheiro injusto diante de Deus é compartilhá-lo com seus filhos mais pobres.

As palavras de Jesus não foram bem acolhidas. Lucas nos diz que “estavam ouvindo estas coisas alguns fariseus, amantes da riqueza, e caçoavam dele”. Eles não entendem a mensagem de Jesus. Não lhes interessa ouvi-lo falar de dinheiro. Só se preocupam em conhecer e cumprir fielmente a lei. Consideram a riqueza um sinal de que Deus abençoa sua vida.

Embora venha reforçada por uma tradição bíblica, esta visão da riqueza como sinal de bênção não é evangélica. É preciso dize-lo em voz alta porque ainda há pessoas ricas que de maneira quase espontânea pensam que seu êxito econômico e sua prosperidade são o melhor sinal de que Deus aprova sua vida. Um seguidor de Jesus não pode fazer qualquer coisa com o dinheiro: há um modo de ganhar dinheiro, de gastá-lo e de desfrutá-lo que é injusto, porque esquece os mais pobres.

 

A lógica de Jesus:

A lógica de Jesus é arrasadora. Se alguém vive subjugado pelo dinheiro, pensando só em acumular bens, não pode servir a esse Deus que quer uma vida mais justa e digna para todos, a começar pelos últimos. Para ser de Deus não basta fazer parte do povo eleito nem lhe prestar culto no templo. É necessário manter-se livre diante do dinheiro e ouvir o chamado a trabalhar por um mundo mais humano.

Algo está errado no cristianismo dos países ricos quando somos capazes de afadigar-nos para aumentar sempre mais nosso bem estar sem sentir-nos interpelados pela mensagem de Jesus e pelo sofrimento dos pobres do mundo. Algo está errado quando pretendemos viver o impossível: o culto a Deus e o culto ao bem estar. Algo vai mal na Igreja de Jesus, em vez de proclamar com nossa palavra e com nossa vida que não é possível a fidelidade a Deus e o culto à riqueza, contribuímos para adormecer as consciências, desenvolvendo uma religião burguesa e tranquilizador. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

Hoje fala-se muita crise religiosa provocada pelo racionalismo contemporâneo, mas esquece-se esse “afastamento” de Deus que tem sua origem não no agnosticismo mas no poder sedutor do dinheiro. No entanto, de acordo com Jesus, quem se amarra no dinheiro termina afastando-se de Deus. Sempre se realçou que, curiosamente, o Evangelho não denuncia tanto a origem imoral das riquezas conseguidas de maneira injusta, quanto o poder que o dinheiro tem de desumanizar a pessoa, separando-a do Deus vivo.

O pensamento de Jesus aparece assim com clareza: quando uma pessoa faz do dinheiro seu único ponto de apoio e sua única meta, a obediência ao Deus verdadeiro desaparece. A razão é simples: O coração do indivíduo que caiu na armadilha do dinheiro endurece. Ele tende a buscar apenas seu próprio interesse, não pensa no sofrimento e na necessidade dos outros. Em sua vida não há lugar para a solidariedade. Pro isso não há lugar para um Deus Pai de todos.

A mensagem evangélica não perdeu sua atualidade. Também hoje é um erro fazer do dinheiro o “absoluto” da existência. Quem escuta o Evangelho é induzido a uma reformulação total de vida e convidado a compreender, de maneira radicalmente nova, o sentido último de tudo e a orientação decisiva de sua conduta.

 

Façamos nossa oração:

Espírito de determinação, afasta de nós toda a tentação de nos acomodar, e, pouco nos empenhando em vivenciar o que o Reino exige de nós. Amém.

 

“A responsabilidade pelo conteúdo é única e exclusiva do autor que assina a presente matéria”.

Padre Ari Antonio da Silva

Colunista l pe.arisilva@hotmail.com

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