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A misericórdia do Pai Celeste

(Lc 11,1-13)

17º Domingo do Tempo Comum

O traço mais característico do Pai, transmitido nos Evangelho é a misericórdia. Por isso, ao ensinar os discípulos a rezar, Jesus revelar-lhes o rosto misericordioso do Pai, e os exorta a contar sempre com ele. Um dado fundamental: é preciso ser perseverante, quando se trata de recorrer ao Pai. Só ele conhece o momento oportuno de atender a quem lhe pede ajuda. Contudo, ninguém perde por esperar.

A argumentação de Jesus funda-se na insuperável misericórdia divina. Se nenhum pai humano, por pior que seja, responderia à súplica de um filho, dando-lhe algo nocivo, quanto mais o Pai Celeste. Sua bondade infinita responde generosamente a quem lhe suplica. E ninguém fica decepcionado, pois a garantia a sua intervenção em favor de seus filhos.

A oração do Pai-nosso é o resumo de tudo de que há de bom e que o discípulo pode desejar obter do Pai. Para rezá-lo, o orante deverá despojar-se de suas ambições pessoais e sintonizar-se com a misericórdia divina. Por isso, seu desejo é ver santificado o nome do Pai Celeste e concretizado seu Reino, na história humana. Seus anseios abrem-se para as relações interpessoais e se manifestam na esperança de ver o pão ser partilhado entre todos, os pecados, perdoados, e o ser humano, livre das insídias do Maligno. Só um coração misericordioso, à imitação do Pai, poderá nutrir tais desejos!

 

Pedir, buscar, bater:

Nas primeiras comunidades cristãs recordavam-se algumas palavras de Jesus dirigidas a seus seguidores, nas quais se lhes indica com que atitude devem viver:

“…digo-vos: Pedi e vos será dado; buscai e achareis, batei à porta e vos abrirão, Porque quem pede recebe; quem busca encontra; e quem bate se abre”. “Pedi e vos será dado”. Na Igreja planeja-se, organiza-se e trabalha-se buscando eficácia e rendimento. Mas muitas vezes só contamos com nosso esforço. Não há lugar para o Espírito.

“..buscai e achareis”. Muitas vezes não sabemos buscar para além de nosso passado. Sentimos medo de abrir novos caminhos ouvindo o Espírito. Não nos atrevemos a dar por encerrado aquilo que não gera vida e sufocamos a criatividade que nos incita a buscar algo realmente novo e bom. Sem buscadores é difícil a Igreja encontrar caminhos para evangelizar o mundo de hoje.

“…batei à porta e vos abrirão”. Se ninguém bate à porta chamando pelo Espírito, não se abrirão novas portas. Defenderemos segurança com todas as nossas forças. Teremos medo das mudanças, porque, se este presente desabar, não há mais nada. Falta-nos fé no Espírito criador de nova vida. Construiremos uma Igreja segura, defendida dos perigos e ameaças, mas será uma Igreja sem alegria e sem paz e sem ar, porque nos faltará o Espírito Santo de Deus. “Bater” é bradar para alguém que não sentimos próximo, mas que acreditamos que nos pode escutar e atender. Assim Jesus brada ao Pai na solidão da cruz. É explicável que se obscureça hoje a fé de não poucos cristãos que aprenderam a confessá-la, celebrá-la e vive-la numa cultura pré-moderna. O que é lamentável é que não nos esforcemos mais para aprender a seguir Jesus hoje bradando a Deus a partir das contradições, conflitos e interrogações do mundo atual.

 

Precisamos orar e aprender a orar:

Talvez a tragédia mais grave do ser humano de hoje seja sua crescente incapacidade para a oração. Estamos esquecendo o que é orar. As novas gerações abandonam as práticas de piedade e as fórmulas de oração que alimentaram a fé de seus pais. Reduzimos o tempo dedicado à oração e à reflexão interior. Às vezes excluímos praticamente a oração de nossa vida. Mas não é isto o mais grave. Parece que as pessoas estão perdendo a capacidade de silêncio interior. Já não são capazes de encontrar-se com o fundo do seu ser. Distraídas por mil sensações, presas a um ritmo de vida afobado, estando abandonando a atitude orante diante de Deus.

Por outro lado, numa sociedade na qual se aceita como critério primeiro e quase única a eficácia, o rendimento ou a utilidade imediata, a oração fica desvalorizada como algo inútil. No entanto, precisamos orar. Não é possível viver com vigor a fé cristã nem a vocação humana subalimentados interiormente. Mais cedo ou mais tarde, a pessoa experimenta a insatisfação produzida no coração humano pelo vazio interior, pela trivialidade do cotidiano, pelo tédio da vida ou pela falta de comunicação com o Mistério.

Precisamos orar para encontrar silêncio, serenidade e descanso que nos permitam sustentar o ritmo de nossos afazeres diários. Precisamos orar para viver em atitude lúcida e vigilante no meio de uma sociedade superficial e desumanizadora. Precisamos orar para enfrentar nossa própria verdade e ser capazes de uma autocrítica pessoal e sincera. Precisamos orar para nos libertamos aos poucos daquilo que nos impede de ser mais humanos. Precisamos orar para viver diante de Deus em atitude festiva, agradecida e criativa. Felizes os que também em nossos dias são capazes de experimentar nas profundezas de seu ser a verdade das palavras de Jesus: “…Quem pede está recebendo, quem busca está encontrando e a quem bate estão abrindo”.

 

Façamos nossa oração.

Espírito que despoja do egoísmo, sintoniza-nos com a misericórdia do Pai, tirando-nos de nós tudo quanto nos fecha aos estreitos limites de nossas ambições pessoais. Amém.

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