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Cuida das minhas ovelhas!

(Jo 21,1-19)

3º Domingo após a Páscoa

            A morte de cruz encerrou o ministério terreno de Jesus. Ao exclamar: “Tudo está consumado!”, ele proclamou ter levado a termo a missão recebida do Pai.

            Todavia, restava muito a ser feito. O Evangelho deveria ser anunciado a todos os povos, e a salvação chegar até os confins da terra. A sementinha do Reino não podia ficar infrutífera. Era preciso fazê-la desabrochar para tornar-se uma árvore frondosa.

            A missão, agora, seria tarefa dos discípulos. Com que condições? A primeira delas consistia em estar unido ao Senhor, por um amor entranhado, numa proximidade tal que lhes permitisse assimilar a vida do Mestre. Esta centralidade de Jesus na vida do discípulo seria garantia de sua presença no decorrer da missão. A segunda consistia em estar consciente de ter sido encarregado de uma missão recebida do Senhor. O discípulo atuaria como servidor dessa missão, e não como dono do rebanho!

            Ao ser três vezes interrogado, Pedro confessou seu amor a Jesus. Este, então confiou-lhe o encargo de cuidar de suas ovelhas. O rebanho não é propriedade do discípulo, e a relação entre ambos deve ser permeada pelo amor do Senhor.

            O ministério, portanto, teria três polos, Jesus confia a missão – o discípulo que a executa, por amor – e o rebanho a ser conduzido pelos caminhos do Senhor.

Sem Jesus não é possível

            O encontro de Jesus ressuscitado com seus discípulos junto ao mar de Tiberíades foi descrito com clara intenção catequética. Há um simbolismo central da pesca no meio do mar. Sua mensagem não pode ser mais central para os cristãos da atualidade: só a presença de Jesus ressuscitado pode dar eficácia ao trabalho evangelizador de seus discípulos. Vejamos: o relato descreve o trabalho que os discípulos fazem na escuridão da noite. Pedro toma uma decisão, “…eu vou pescar”, “…também nós vamos contigo”. Estão de novo juntos, mas falta Jesus.

            O narrador deixa claro. “…naquela noite não pescaram nada”. Aqui o termo “noite” significa na linguagem do evangelista a “ausência de Jesus, que é luz”. Sem a presença de Jesus ressuscitado, sem seu sopro e sua palavra orientadora, não há evangelização. Com a chegada do amanhecer Jesus se faz presente. Queridos irmãos e irmãs, trazendo essa imagem para o hoje da vida vemos que a situação de não poucas paróquias e comunidades cristãs é crítica. As forças diminuem. Os cristãos mais comprometidos se multiplicam para abarcar todo tipo de tarefas: sempre os mesmos e os mesmos para tudo.

            Para difundir a Boa Notícia de Jesus e colaborar eficazmente em seu projeto, o mais importante não “fazer muitas coisas”, mas cuidar melhor da qualidade humana e evangélica do que fazemos. O decisivo não é o ativismo, mas o testemunho de vida que nós cristãos podemos irradiar. Não podemos ficar na “epiderme da fé”. São momentos de cuidar, antes de tudo, do essencial. Enchemos nossas comunidades de palavras, textos e escritos, mas o decisivo é que entre nós se escute a Jesus. Fazemos muitas reuniões, mas o mais importante é a que nos congrega cada domingo para celebrar a ceia do Senhor. Só nele se alimenta nossa força evangelizadora.

Tu me amas?

            Esta pergunta que o Ressuscitado dirige a Pedro lembra a todos nós que nos dizemos crentes que a vitalidade da fé não é um assunto de compreensão intelectual, mas de amor a Jesus Cristo. É o amor que permite a Pedro entrar numa relação viva com Cristo ressuscitado e que também pode introduzir-nos no mistério cristão. Que não ama, dificilmente pode entender algo sobre a fé cristã.

            Não devemos esquecer que o amor brota em nós quando começamos a abrir-nos a outra pessoa, numa atitude de confiança e entrega que vai sempre além de razões, provas e demonstrações. De alguma maneira, amar é sempre “aventurar-se no outro”. A fé cristã é “uma experiência de amor”. Por isso crer em Jesus Cristo é muito mais do que “aceitar verdades” sobre Ele. Cremos quando realmente experimentamos que Ele vai se convertendo no centro de nosso pensar, nosso querer e todo nosso viver. Esse amor a Jesus não reprime nem destrói nosso amor às pessoas. A experiência do amor a Cristo pode dar-nos forças para amar inclusive sem esperar algum ganho ou para renunciar.

Alguém nos espera

            O verdadeiro e decisivo problema que a humanidade tem levantado é o problema do futuro. O que vai ser de todos e cada um de nós? O que vai ser de mim mesmo, de minha família, de meus projetos e minhas aspirações? O que vai ser de meus filhos, de meu povo, da humanidade inteira? Em que vão terminar nossas lutas, trabalhos e esforços?

            São muitos os que, sentindo-se “homens de mente moderna”, rejeitam a esperança cristã como pura mitologia desprovida de todo valor. Utopias fantásticas próprias de uma época ainda não iluminada pela razão. Nós cristãos cremos que, quando se desvanece a esperança na salvação de Deus, o mundo não se enriquece, mas se esvazia de sentido e fica privado de horizonte. Por isso, enquanto nos cansamos “no meio do mar da vida”, temos nosso olhar voltado para este Ressuscitado que nos espera “na margem” para nos convidar a saciar finalmente toda nossa fome de felicidade. “Vinde comer”.

Gesto final

            Durante muitos anos, Jean-Paul Sartre foi o grande pregador mais ouvido do existencialismo ateu. Essa mensagem calou profundamente nas gerações do pós-guerra. Deus não existe, dizia, ele. O homem está só, lançado neste mundo absurdo, prisioneiro de sua própria liberdade, e acaba desembocando no “nada” final. Segundo Sartre, é absurdo que tenhamos nascido, e é absurdo que morramos. O ser humano não é mais do que “uma paixão inútil”, e a morte, um fato brutal e absurdo que nos converte em “desposo dos sobreviventes”. Este é o resultado de sua devastadora análise.

            No fim de sua vida, Sartre, depois de um intenso contato com seu amigo judeu Benny Levy, homem crente em Deus, ele escreve em Le Nouvel Observateur, de Paris (março de 1980): “Eu me sinto não como um pó que apareceu no mundo, mas como um ser esperado, provocado, prefigurado, como um ser que não parece poder vir senão de um Criador, e esta ideia de uma mão criadora que me tivesse criado me remete para Deus”. Muitos dos seus amigos reagiram, mas o representante máximo de um ateísmo desesperador parece ter preferido, no final, abrir-se ao mistério e não permanecer encerrado no absurdo. E o pensador francês Jean Guitton comentou a frase de Sartre assim: Eu me inclino diante do último gesto de Jean-Paul Sartre. Vejo neste gesto o rastro de uma valentia soberana que nos permite desmentir-nos para acabar-nos eternamente. É bom que, antes de fechar os olhos e despedir-nos deste mundo, saibamos desmentir-nos de nossos erros e estupidez, para nos abrir humildemente ao mistério santo de um Deus que nos espera, ainda que junto de nós haja pessoas que nos chamem de fracos, covardes e cegos.

Façamos nossa oração:

Espírito de dedicação, que nós cuidemos, com total generosidade, do rebanho a nós confiado pelo Senhor, e, que saibamos sempre conduzi-lo com muito amor e carinho. Amém

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