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A rigorosa geometria do inverno campesino

            Coisa triste é ver os animais se defendendo da melhor forma contra o sopro do minuano que lhe castiga o corpo, e torna sofridos seus dias de inverno. Ainda mais quando levantam um pouco seu desacorçoado olhar e enxergam que o frio não é seu único motivo de sofrimento: as pastagens que lhes garantiram a estampa robusta que tanto orgulhava seus donos, estão sofrendo mais do que eles por causa da geada que costuma dormir em seus campos. Então, pouca comida e muito frio, torna o inverno a baliza dos destinos das pessoas, dos animais, dos céus e das terras.

            Nesse quadro infeliz eles buscam para si o minguado consolo que a Natureza lhes oferece: seus pelos crescem espontaneamente compondo apropriada vestimenta para quem está inapelavelmente subjugado aos caprichos do meio ambiente. Essa cobertura, delicada como penteado de donzela, reúne suavidade, eficiência e beleza. Ao impacto do Sol ela emite esparsos raios de luz, pintando de vagalumes a serenidade das planuras e coxilhas rio-grandenses. E o equilíbrio entre o bom e o ruim, confere à criação estadual de gado, comoventes padrões de sensibilidade.

            O poder e a fatalidade do inverno mandam recado, dizendo que acalmou os ocupantes vivos da superfície e que chegou a hora da vida campesina descansar. Enquanto isso, o fogo lambe as coxilhas aquentando a terra que dorme. Durante o dia, cada raio solar é recebido como dádiva generosa, derretendo a geada e destinando ao bicharedo um sopro de calor capaz de amenizar os arrepios de seu desconforto, temperado pela fome e pela saudade dos fartos tempos de verão e pedaços de outono. Nos pesadelos de seus cochilos, eles fazem de conta que não se importam com os irmãos que tremem a seu lado.

            Quando entardece, a fumaça que escapa das chaminés transmite o recado de que é hora de procurar os abrigos das casas, dos galpões ou dos capões de mato. Depois, enquanto os pássaros cantam para chamar a noite, os habitantes vivos da campanha se associam para desfrutar do silêncio que vem junto com o pôr do Sol e as calmarias do inverno.  

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