Exposição Reflexos da Justiça de Douglas Fischer 

Fotografia é luz.

A fotografia ilumina e revela.

 

Já a justiça tem iluminado e vem revelando implacavelmente as mazelas e os meandros da corrupção no Brasil.

O olhar do procurador  da República Douglas Fischer está focado simultaneamente na justiça e na fotografia.

Como procurador, ele trabalhou junto a Rodrigo Janot, integrando a equipe da Operação Lava Jato, encarregada de investigar a rede de irregularidades praticadas na Petrobras. Nos últimos anos, passou 14 horas por dia, muitos dias por semana,  envolto num mar de lama e óleo que parecia subir até os joelhos.

E foi em meio a essa rotina um tanto deprimente e com certeza estressante que Douglas Fisher encontrou força e inspiração para focar seu olhar naquilo que – como a roubalheira – também estava bem ali, ao seu lado: as formas, os contornos e os múltiplos reflexos do prédio que abriga a Procuradoria Geral da República em Brasília. Projetado por Oscar Niemayer e inaugurado em 2002, o edifício tem seis blocos unidos por passarelas e subsolos. Dois grandes cilindros espelhados são sua mais notável característica.  Trata-se, é evidente, de um conjunto arquitetônico dos mais fotogênicos. A questão é que ele parece exigir intimidade e entrega para revelar-se em sua radiosa luminosidade.

Entrega e intimidade não faltaram a Douglas Fischer. Até porque as múltiplas facetas, o jogo de espelhos, as sombras e luzes projetadas pelo prédio lhe forneciam, toda a manhã, força extra para seguir em sua tarefa tão desgastante e árdua. Fotógrafo nas poucas horas vagas, Fisher dedicou-se então a retratar e a desvendar o prédio no qual o Brasil inteiro concentra sua atenção e suas esperanças.

Se o trabalho da Procuradoria Geral da República por trás daquelas paredes de vidro ainda parece longe de estar encerrado, não restam dúvidas de que já trouxe muito mais transparência para o Brasil. Já o trabalho de Douglas Fischer por detrás das lentes se revela como uma metáfora transcendente e inquietante dos múltiplos reflexos da justiça na sua busca  para dissipar as sombras e projetar a luz.

Com um olhar criativo e sensível, o procurador parece ter encontrado o que buscava – pelo menos quando estava com a câmara na mão.  E é por isso que a galeria do Canela Instituto de Fotografia e Artes Visuais, localizada na Casa Francesa, tem orgulho em expor o ensaio Reflexos da Justiça – com a esperança de que o Brasil continue a lançar esse novo olhar sobre si mesmo...

 Eduardo Bueno