Para atravessar o mês de setembro de bombacha ou de vestido de prenda, igual ao que nosso antepassado já vem fazendo há mais de um século, confirmamos a convicção de que somos claramente pouco literais em se tratando de vitórias ou derrotas. Tanto que comemoramos as guerras perdidas por Sepé Tiarajú e Bento Gonçalves. Mas os ventos que assopram a história cantam sempre o mesmo hino.

Na verdade, Sepé Tiarajú embestou de enfrentar os dois maiores impérios da época agarrando com uma mão a lança e com a outra a crina de um cavalo, tendo junto com ele um punhado de índios certos de que cavalgavam para a morte. E Sepé morreu em minoria, teimando que esta terra tinha dono.

Mais tarde, surgiu Bento Gonçalves, um Sepé fardado, mas igualmente teimoso. Enfrentou as forças imperiais, sem a mínima chance de vitória militar e depois de dez anos de luta, baixou a espada e morreu de tristeza uns meses mais tarde.

Esses dois nomes fazem parte da Semana Farroupilha, que Gramado sempre comemora com tanto respeito e entusiasmo, e que dedica sete dias por ano a remodelar o espírito gramadense, de modo que ele nunca perca o cheiro da soberania que devemos à terra em que estamos vivendo.

Então, a anomalia já secular de citadinos vestirem-se de peão de estância, não é nenhuma alegoria, mas símbolo cultural e político. Cavalos batendo casco no asfalto não é exibicionismo pueril, mas demonstração de que estamos resistindo às tentativas de destruição global dos nossos valores. Nossa música, nossa linguagem e nossa bombacha, expressam aquilo que nunca queremos mudar. Nosso culto ao churrasco é a maneira de dizermos que não nos sentimos obrigados a comer «X- burguer».

Assim, a Semana Farroupilha, é um evento gramadense que não é feito para turista ver. É uma festança que fazemos para mostrar a nós mesmos que preservar a natureza espiritual do Rio Grande é a melhor forma de amar nossa própria cidade.

 

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