Recém brotava o século XX, quando minha mãe enxergou o mundo pela primeira vez. Era um mês de agosto, daqueles em que São Pedro exercia seu costume de cobrir os campos com geada e com neve os galhos das araucárias. Percorreu quase todo o século a que pertenceu escrutinando o que a vida tinha de melhor, embora, frequentemente o melhor não fosse lá grande coisa.

Porém, seu olhar benigno aumentava o tamanho das pequenas alegrias que compuseram seu cotidiano: muitos desses olhares foram depositados sobre seus filhos, que colheram dela o otimismo e o costume de avaliar as pessoas e os acontecimentos da vida sempre pela sua melhor face. Insistiu até enterrar na consciência deles que quanto maior fosse o sacrifício, maior seria a capitalização perante Deus que, não sendo vingativo, às vezes utilizava a dor para tornar mais feliz os tempos que nos esperam na eternidade. Talvez esse tivesse sido o consolo para seu frustrado e incansável desejo de um dia ter sido professora. Contudo, três de seus cinco filhos a representaram profissionalmente em sala de aula.

Do ponto de vista familiar, exerceu o característico matriarcado germânico de modo sábio e equilibrado, insistindo que não poderíamos ter defeitos que ela declarava ter – que nós não víamos – como, por exemplo, a célebre afirmação “ para burro chega eu, meus filhos têm que se formar”, numa época em que os filhos eram pouco mais do que mão de obra dos pais. E todos alcançaram diploma universitário.

Interessante como tacitamente os filhos comemoravam sua aparente perfeição. Construiu seu afável poder em cima de oportunas metáforas, considerando o uso da força (como depois explicou) a demonstração de incapacidade educativa e pobreza de carinho e compreensão junto a pequenos que a ela confiavam suas vidas. Com isso criou uma áurea de admiração e afeto que a acompanhou até o fim da vida. 

Por causa dela é que o mês de agosto está tão bem alinhado com o que me passa pelo coração, todos os dias, e me leva sempre a republicar na mais contrita convicção: “Em toda a história da humanidade existiram duas pessoas perfeitas, um homem e uma mulher. O homem foi Jesus Cristo e a mulher foi minha mãe”.

 

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