A realidade contemporânea de Gramado mostra que todas as atividades humanas locais ficaram aprisionadas aos veículos automotores. Sucumbindo ao natural encanto dos seres humanos pelo automóvel, entregamo-nos ao domínio deles e os instrumentamos para serem grosseiros algozes da qualidade de nosso turismo.

A confusão que compõe a mobilidade urbana gramadense encontra nos carros o artífice exclusivo, a desenhar o lamentável quadro que mostra a ocupação das ruas e a superlotação das calçadas da cidade. Pior que a serração, encobrem sentimentos de apreço e medo: as calçadas podem até nem existir, mas as pistas por onde eles rolam, possuem a suavidade exigida pela sua intocável soberania.

O Poder Público, em suas várias formas de responsabilidade, e os órgãos específicos que cuidam da nossa mobilidade, alcançaram um nível de maus resultados, incompreensível para quem vê Gramado ter seus problemas resolvidos por soluções impetuosas, eficientes e rápidas. Então, é justo e conveniente, meditar sobre o que fizeram nossos antepassados para nos legar uma cidade tão especial e o que estamos fazendo com ela.      

Nesse cenário, parece mentira dizer que há tempos atrás muita gente morria de velho sem ter conhecido o cheiro de gasolina. Sentiam-se à vontade ao embalo das máquinas ferroviárias e ao lamento dos bois que puxavam carroças pelos atoleiros da Borges de Medeiros ou dos cavaleiros que socavam cada pedaço de nosso chão.

O trânsito não incomodava ninguém, permitindo que as ruas de Gramado estivessem a serviço de seus moradores. Nossos movimentos cotidianos eram muito simples, mas de dignidade que valorizava o convívio entre pessoas, enchendo de calma uma população que se sentia dona do lugar em que morava. Contudo, ninguém ignorava que as mudanças eram inevitáveis, pois assim sempre acontecia. Mas ignoravam que os novos meios de locomoção haveriam de criar uma multidão de deslumbrados escravos.

Na verdade, no fim do século passado e no começo do atual, a grande alegria da simplificação do direito de ir e vir transformou-se em mortífero pesadelo, pois até uma visita a Canela aparece como atividade de alto risco de vida. Nossos grandes eventos são valorizados por encantados visitantes, mas engarrafados por veículos em número cada vez maior para as ruas sempre do mesmo tamanho. E já que estamos remexendo na história gramadense, será que nossos antepassados considerariam inteligentes as transformações que estamos encaminhando?    

   

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