O pinhão é o fruto mais serrano que existe testemunhando sua valentia pelo fato de ser uma das únicas frutas que tem coragem de enfrentar o frio arrepiante e as imaginárias nevascas que cobrem as coxilhas e montanhas de Cima da Serra.

Além disso, tem comovente traço de generosidade ao se oferecer, por perdidos matagais, aos caboclos que buscam essa fruta para mitigar sua vontade de comer e acumular alguma graxazinha para enfrentar o inverno. Nos ranchos, enquanto isso, suas famílias estão esperando, com um olho no fogo de chão e outra na panela preta que balança no tripé, ansiando para oferecer mais uma cozinhada dos santificados filhos das araucárias. 

O pinhão é o mais puro exemplo de integração regional serrana. Desde os cantos de Tainhas até as caídas da nossa Linha Araripe, as estradas estão marcadas por tendas em que ele é oferecido a quem quiser adquiri-lo, como alimento de inverno ou originalidade a ser mostrada para amigos e parentes que moram longe. E na frente dessas pequenas fogueiras ocorre comovente uniformidade social entre caboclos cheirando a rezina de lenha de mato, madames a Cristian Dior, trabalhadores a espera de banho: conjunto de aromas que deixa batendo cabeça até os bichos do mato que estão espiando.

Enquanto isso, os turistas vão atirando suas inquietações para as valetas das estradas e permitem que neles desperte a centelha do descanso que vieram buscar.

A venda de pinhão na margem das rodovias é teimosa expressão cultural que Gramado vive desde sua criação. Ela adquiriu fisionomias diferentes conforme o andar das épocas, transformando-se de grosso negócio empresarial em peça ritual de refinado cenário turístico. E, para manter a fidelidade ao que sempre foi, quando os caboclos catam seus pinhões não perguntam quem é o dono das terras onde os pinheiros estão: usam o brio de quem se criou sem ser mandado.

São gramadenses humildes, cheirando a terra e fumaça, que guardam um senso de liberdade que já adormeceu em seus DNAs, junto com o orgulho de ser parte da vida dos pinheiros e dos pinhões. Cristalizaram o direito de estarem acima de leis periféricas e insensíveis, escrevendo suas posses na letra dos facões, pouco inocentes integrantes do mobiliário do lugar. 

Por tudo isso, para nós, o pinhão não é simples alimento, é símbolo espiritual que harmoniza o que somos com o que queremos que nossa terra sempre seja.

                

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