O inverno já apontava na curva do calendário quando saí da Tapera, colônia onde moro, para vir à cidade a fim de tratar de assuntos do interesse de meus cavalos. Agradável tarefa, já que eles e eu somos tão harmônicos que até calçamos ferraduras do mesmo número.

Cheguei assoviando para disfarçar a incerteza de que ninguém ia notar de onde eu vinha, já que estava cuidadosamente enfiado em roupas que esperava me identificassem apenas como corriqueiro integrante da turba urbana. Algumas desconhecidas até me olhavam com indissimulada aprovação, o que me dava certeza de outras certezas e que os olhares bem compreendiam os subjetivos estalos de minhas ferraduras.

Observando o que se passava sobre os contornos do asfalto, levei um susto pensando que não tinha abandonado meus domínios coloniais. Embora envolvido pela dominadora presença da civilização, minha alma de agricultor conviveu com pássaros descontraídos, exultando o esplendor da vida. Eles esperavam, sobre galhos chamuscados pelo sopro impuro dos automóveis e já amarelecendo pelo começo do outono, o amadurecimento dos frutos e o fim dos ciclos vitais de insetos e larvas, com o que iriam alimentar os filhotes resultantes de promissores preâmbulos de primavera e construtivos exercícios de verão. E alguns coelhinhos retardatários já deixavam escapar um delicioso perfume de chocolate.

Os trabalhadores que completavam o cenário citadino viviam o empalidecer do apogeu com que Gramado festejou o fim de um ano e o começo de outro. Porém, a espontaneidade alegre que espalhavam, traduzia o descanso resultante de boas sementes empresariais entregues à primavera, cultivadas com entusiasmo de verão e recolhidas como prêmios de outono.

A viagem, lentamente, levou-me a pensar em nada, a concluir por nada, a julgar por nada. Com imensa confiança e serenidade, quis deixar-me levar para onde meu espírito quisesse, pelos caminhos gramadenses que quisesse, ao lugar onde quisesse. Não sei por quanto tempo andei, nem pelos lugares onde passei. Então, por longo tempo, caminhei em minha própria e absoluta companhia, aconselhado, exclusivamente, pelo som de meus passos.

O passeio inesperado consolidou a consciência de que também tenho um lugar no universo. E esclareceu, por analogia, a força purificadora que colho das rondas que faço pelas estradas que já percorri na minha infância, durante as quais só ouço o som dos passarinhos e o repicar dos cascos de meu cavalo.

 

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