A estação mais gramadense que existe é a primavera, principalmente por fornecer aos cronistas locais inesgotável fonte de referência, brotada dos encantos da terra, até pouco sufragadas pela insistente, mas infrutífera espera da neve.

Por aqui, quando a primavera é de águas rasas, nossos pedaços de chão e de céu são iluminados por exuberante clarão de alegria e descontração. Os turistas ficam rindo à toa, submetidos à   incontroláveis desígnios de elogio e ardente vontade de comprar, resultando no gracioso tilintar que identifica nossa prosperidade e amplifica o ardor pelas belezas que, em qualquer tempo, compõem nossa elegante cidade. E os longos períodos diários de iluminação estimulam todas as pituitárias e intensificam sonolentos campos de entusiasmo e de criação espiritual. Os ânimos lastimosos e sem graça, que foram carregados durante todo o inverno, são substituídos por manifestações de fraternidade, compreensão e esperança.

Contudo, quando essa estação tem que se curvar aos maus humores de São Pedro, e contrariar a delicada natureza climática desse santo, submete Gramado à uma sacrílega agressão líquida que afoga tudo o que temos de melhor e mais bonito.

No começo das grandes enxurradas parece que nada vai acontecer, além de simples mudança de panorama que, às vezes é até abençoado por algum arco-íris. É que a terra está enchendo seus porões, preparando as reservas que serão necessárias no verão. E quando os subterrâneos transbordam, as águas excedentes varrem a superfície. 

Então, jardins são desfeitos e os canteiros de nossas ruas envergonham-se por mostrar flores e folhas machucadas pelos aguaceiros, os arvoredos torcem os galhos, ao peso das águas e da força dos ventos. Disso se aproveita a cerração e o frio, espalhando um nada bem-vindo retalho de inverno. E isso espanta os turistas, liberta nossas carrancas e pinta Gramado em cores de lamentável melancolia.

Porém, esses tempos de desgraça são curtos e os estragos que esses malignos lapsos primaveris ocasionaram, provocam o ímpeto gramadense, que reage com pressa para que, quando o Papai Noel chegar, o charme da cidade esteja recuperado.

 

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