Gramado está sempre aprontando surpresas para quem tem o dom de enxergar através da sensibilidade. Cada uma delas está fixada em tempo próprio dentro do ritmo das estações e carrega motivos pintados com as cores da própria terra. E as azaléias formam o cenário que acorda a primavera, fazendo brotar a beleza gramadense por todos os cantos.

Às vezes, queremos desanimar sob o argumento de que essas flores duram tão pouco e logo sucumbem ao impacto das águas de setembro. Mas, elas não foram feitas para ficar, senão para serem artífice de um sinal. A sua floração termina com o temor de outras espécies e atiça a vontade que elas têm de ajudarem a enriquecer as cores que tanta fama dão à primavera.

Mostra que ninguém mais precisa ter medo de inverno e que outras flores e tenras folhas podem arriscar seus olhares ao mundo, pois se a delicada azaléia vive, certamente todas viverão também. 
Mas no jogo de seus cuidados, a natureza toma algumas precauções. E, ao tempo das azaléias, as hortênsias esperam.

Nossa flor símbolo reserva-se para o Natal, pois precisa pegar carona com o Menino Jesus e o Papai Noel. É que ela é modesta e cautelosa e, embora esparramada por indiscriminados recantos, nunca será mais do que uma grandalhona sempre branca, às vezes puxando para um azul desbotado. Concorrer com o esplendor das azaléias, seria atirar-se ao ridículo.  Então, concluindo que a beleza individual não é seu forte, as hortênsias tomam alimento e sol, formam multidões e preparam-se para ser a moldura do nosso próximo Natal Luz.

A repentina floração das azaléias, ainda, gera efeitos mais práticos porque a maravilha que são, quebra a amargura de espíritos que abandonaram os mais atraentes lados da vida. Os estímulos que despontam, nem sempre passageiros, conduzem à compreensão, ao otimismo e à alegria que todo gramadense deve à especial terra em que pisa.

Porém o mais refinado apelo das azaléias é atendido pelas orquídeas, que respondem florescendo nos matos, nas estufas e até na Rua Coberta. E a encantadora avalanche de suas cores é demais para o tímido orgulho das azaléias. Olham-se nos espelhos do orvalho e se recolhem, fazendo planos para as glórias do ano que vem.

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