Os arquivos que guardam os fatos e costumes que construíram ao longo dos séculos o nosso Rio Grande, testemunham que, fora a água, a bebida mais antiga que usamos é o chimarrão. Ele não vale pelo gosto, que é amargo, nem pelo preço que custa, já que a folha de onde provém pertence a uma árvore que cresce em qualquer biboca. É que o chimarrão é o companheiro que escolhemos para nossos momentos de meditação e descanso.

Então, quando o rio-grandense fica de mano com sua cuia de chimarrão ele toma o mundo por companhia. Seu espírito se abre, sua compreensão aumenta e as soluções para dificuldades pessoais brotam em tantas e tão rápidas formas que, às vezes, aplainadas pelo tempo de um único pôr de sol, trazem solução adequada para angústias ou dúvidas que pareciam sem solução. Esses momentos são mais produtivos quando acontecem de madrugada, embora de tardezinha também podem ser muito eficientes.

Quem não nos conhece é capaz de chamar de louco um gaúcho solitário que fica em silêncio, olhando janela-afora o amanhecer do dia ou o começar da noite. Mas nós compreendemos que esse gaúcho não está sozinho, porque foi atendendo ao convite que lhe fizeram a erva, a bomba, a cuia e a água quente, que ele se levantou cedo para pensar e organizar sua vida, e dar liberdade para seu pensamento voar até os mais longínquos confins do universo. Ou em dias de mau humor, pensar em tudo que não presta, gozando da garantia de que ninguém ficará sabendo de alguns lados negros de suas fantasias.

O chimarrão, além disso, tem conotação machista, tanto que alguns até mateiam para desmentir alguns boatos. E quando, em algum escondido cafundó, toma a companhia de um robusto cigarro de palha, revive a figura do rio-grandense completo, daqueles que dão medo em brasileiros de outras partes.  Mesmo assim na arca de seus segredos ele guarda a certeza de que o mais doce de seu amargo, é o silêncio das poucas palavras que ele compartilha com sua prenda nas mateadas de todos os dias.

Por tudo isso há quem diga que setembro, o mês do gaúcho, brilha seu mais profundo valor telúrico através do aroma e do suave ronco que brotam das cuias da gauchada, unida para reverenciar os feitos de Bento Gonçalves.

 

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