O pinhão é a fruta-rei do inverno e o feijão o cereal-rei dessa estação. E, para exibir-se, o pinhão conjuga-se com o turismo gramadense fumaceando alegremente nas beiradas do asfalto enquanto o feijão toma pose de aristocrático manjar da burguesia exibindo-se, vestindo de esnobe feijoada, em retumbantes hotéis de luxo. 

O comentário liga-se a outra notícia: os gramadenses comem cada vez menos feijão, derivando para alternativas mais claras, supostamente mais elegantes, mais de acordo com as modernas iguarias. E consumidores de feijão e arroz conhecemos pela saúde que têm, e não por ouvi-los confessar sua preferência alimentar. Porém, a cor escura da nossa preparação tradicional, não lembra pobreza, mas a inteligente ligação entre agradável sabor, baixo custo e elevado grau nutricional.

Nos restaurantes, porém, muitos não se servem de feijão porque querem gastar pouco. Acontece que, devido à sua alta capacidade de reter água, o feijão do prato tem alto peso específico e torna-se a parte mais cara da refeição. Portanto, ao contrário do que alguns pensam, comer feijão e arroz fora de casa é sinal de dinheiro no bolso e não remorso de senzala. E os fracos, que tem medo de mostrar que são pobres, tomam jeito de quem tem gosto refinado, embora invejem os mais abastados que podem suportar esse aumento de despesa.

Outro preconceito reza que em festas, ou dias em que não se trabalha, esse cereal é banido categoricamente. Misturado com arroz, significaria vida dura e ausência de coisa melhor.

Até a louvável tentativa de elevar sua classe, na forma de feijoadas padrão cinco estrelas nesses dias, fracassou porque a tradição ligou a feijoada com o obrigatório consumo de cachaça – desprestígio ligado à falácia de que feijoada é indigesta e cachaça é boa como digestivo. E muitos aguentam ser chamados de bêbados, mas não cachaceiros. Daí porque feijoada nunca mereceu o «status» de domingo, sendo sempre servida aos sábados.

Contudo, apesar do preconceito que pinta feijões de qualquer cor, todos nós sabemos que eles são a maior ambição de nosso paladar doméstico e o mais singelo e afetivo aroma das cozinhas de nossas residências.

 

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