Ninguém cansa de demonstrar surpresa ao ver que somos um dos poucos reservatórios nacionais de Mata Atlântica, apesar da voracidade dos machados de antigamente e das motosserras dos dias de hoje. Na verdade, as matarias que cobrem nosso território, em mais de sessenta por cento, são simples moldura de tudo de moderno e eficiente que o município possui, em termos de instalações e eventos. Porém, temos uma riqueza patrimonial que jamais nos abandonará: a cerração.

Uma das muitas qualidades que a cerração possui é que ela se coloca acima de qualquer tipo de preconceito. Voa por todos os ares, por todas as janelas abertas em casas de moradores, por todos os narizes afobados, pelas frestas dos barracos estrategicamente escondidos dos turistas ou beijando as vidraças de nossos palácios cinco estrelas. E isso faz parte de sua nobre consciência gramadense essencial e cultural.

Mas ela mora em nossos corações porque orgulha essa terra desde sua fundação, mantendo impecável fidelidade histórica; nunca muda de roupa, independente das mudanças que o progresso impõe a seu território: tanto se misturava com a fumaça da pólvora saída do fuzil de meu avô em defesa da cidade, quanto de meus inocentes artigos com a mesma finalidade. E, antes de tudo isso, a cerração se mostrava a caingangues dormitando em suas tocas, comendo pinhão  sapecados nas grimpas de alguma araucária, muito depois, milionários bebendo Whisky importado, usufruindo confortos da Casa da Montanha e outros ninhos de luxo.

Apesar de tudo isso, conta-se que nossa cerração viveu séculos de complexo de inferioridade porque era espantada pelo vento, pelo sol, pela chuva forte. Sentia-se a mais frágil e efêmera manifestação da terra gramadense. Hoje, bendiz a modernidade que lhe trouxe a generosidade  dos turistas, os quais lhe ofereceram uma moradia mais forte que os algozes que teve que suportar por infindáveis tempos: a máquina fotográfica.

Então, sente-se enfim valorizada na límpida intenção de servir o turismo do qual Gramado vive. Ganhou o direito de morar, para sempre, em álbuns e gavetas do mundo inteiro, fazendo propagada das belezas de sua terra, a salvo da concorrência de outros pouco distintos fenômenos da Natureza. 

 

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