Quando, lá pelo começo do inverno, começa a subir fumaça pela beira de nossas estradas ninguém se assusta por medo de fogo escapado ou judiaria de algum louco incendiário. Todos sabem que é tempo do pinhão que, nessa época, é derramado sobre a rotina das cidades serranas.

A barraca humilde resiste ao sol e à chuva e rusticas cadeiras confortam gente simples, que tomam chimarrão enquanto aguardam a abordagem da freguesia. Da panela que a trempe sustenta, sobem incansáveis nuvens de vapor atiçadas por fogo de gravetos, que bota em reboliço os pinhões que estão sendo cozinhados.

As pessoas que arrodeiam o fogo, em discreta alegria, deixam parecer que se consideram importantes por se sentirem integradas a um quadro turístico que repica por todo o País. Muitos citadinos que vém de longe, olham com admiração o conjunto de frutas, fogo e gente. E para os caboclos do negócio, o dinheirinho que ganham tem menos importância do que a sensação de serem, enfim, reconhecidos como pessoas acolhidas com respeito.

Em seu mais amplo significado gramadense a venda de pinhão à beirada das estradas é forma turística que supera qualquer interesse comercial. Além disso, consiste em carinhosa recepção oferecida aos visitantes de outras cidades porque usa como oferenda o mais santo produto da terra. O cheiro da fumaça do fogo de chão, misturado como aroma das flores que vém dos arvoredos, faz o começo da libertação dos espíritos cansados que aqui chegam em busca de consolação.

Acolher a comercialização informal do pinhão tem suave padrão de generosidade. É que se mostra de pouca valentia colocar-se contra a conformada candura dos comerciantes de beira de asfalto – que oferecem dádivas de escondidos matagais ou produtos de seus desajeitados talentos artesanais – e ser a favor dos escancarados estimuladores da cruel e parasita força empresarial chinesa.

Por tudo isso, além das inspirações curtidas por tão tradicional sabor, o pinhão apresenta-se como rico motivo para refletirmos o quanto são verdadeiramente justas e dignas as causas que defendemos como cidadãos sempre estimulados pelos motivos genuínos do chão que nos abriga.

 

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