Um dos prognósticos mais interessantes, e talvez agourentos, que rondam os ares locais, é que Gramado vai acabar se transformando, a médio prazo, numa cidade fantasma. Não em selva de pedra impessoal e vulgar, mas em caricatura ostentando grande opulência e requinte. Ninho de luxo para baratas afortunadas.

Pelo que foi possível entender, o centro da cidade deixará logo de possuir residências e abrigará apenas prédios de apartamentos. Espantados pela mesmice, embora se tratando de um tipo de vila caprichada, os moradores fixos da cidade se mudarão para a periferia, criando novas áreas residenciais amplas, naturais e confortáveis. Nesses lugares, sempre a menos de dez km do mercado, da igreja e da escola, criarão seus filhos, lerão seus livros, escutarão seus pássaros matinais. No centro, durante a semana, ficarão confinados a seu trabalho, olhando pela janela ruas sem movimento, calçadas desocupadas.

Ao fim do expediente, algumas comprinhas, rápida passada pela padaria e de volta ao chinelo e aos desenhos de seu pôr do sol. Os caríssimos apartamentos do limite urbano, guardados para donos que moram longe daqui, queixar-se-ão do silêncio e de mais uma noite sem vida que terão. Mas, lembrando-se de sexta-feira, usarão o silêncio para dormir toda a paz que os descansados assaltantes lhes concederão.

Nos fins de semana, a cidade fantasma brilhará como se fosse santa, invadida pela algazarra de buzinas, passeadores, farofeiros, vendedores. Grande parte dos donos de apartamentos estará em casa, as araucárias torcerão o nariz porque ficará forte o cheiro de cozinha e de gasolina. Os gramadenses permanentes, abandonarão suas casas por algumas horas para ver como está o centro. Retornarão correndo, convencidos que tamanha balbúrdia nada tem a ver com a Gramado que, desde sempre, foi parte imprescindível de seus melhores projetos de vida. O ambiente se prestará a grandes eventos, boa fonte de renda e ruidoso aglomerado de pessoas estranhas. Terminado o episódio, a cidade fantasma, liberta do pesadelo, descansará no silêncio de segunda-feira.

E, observando a sensibilidade gramadense, que nos fez grande, escapar por entre os dedos, fico com medo de que essa crônica não seja apenas desvario de um colono solidamente plantado em sua terra.

 

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