O prefeito João Alfredo Bertolucci, apoiando-se em consistentes evidências climáticas, noticiou que nesse inverno não teremos neve.  A postura ética que sustentou sua decisão foi oferecer ao turista nosso absoluto convívio com as sombras da verdade. Não que isso fosse tão necessário, já que eles acreditam em tudo que prometemos e se a promessa não chega a se realizar, eles se sentem compensados por outros benefícios de que dispuseram. Então, sendo sensível a essa delicada candura, o Governo local tratou de criar um estímulo que pudesse servir de isca atrativa tanto quanto a neve tem sido, embora a falta de convicção para exaltar o sempre microscópico volume de nossas nevadas. E a cerração foi o instrumento compensatório desse límpido processo. 

Embora mencione o fato à boca pequena, o prefeito João Alfredo, até já bem grandinho, foi coroinha de uma capela que existia no Mato Queimado; e foi nessa época que nasceu sua intimidade com São Pedro, o infalível interventor celestial do tempo. E, entre os dois, ficou combinado que como novidade turística de sua administração, estaria a substituição da neve pela cerração. O santo gostou da forma de compensar a devoção do antigo auxiliar do padre Manéa, porque ganhar a eleição estava muito mais difícil do que baixar cerração no que, aliás, ele estava acostumado.

Todos estamos concordando com a sabedoria dessa mudança na qual o prefeito calibrou Gramado com o céu e às nuvens, confirmando a falta de timidez que nos fez ser do tamanho que somos. É que a neve é um desenho que o sol logo apaga e a cerração é um mistério que apaga o sol; a neve é de uma transparência lógica que dificulta e aperta os limites de nosso espírito criativo, e a cerração é sólida base para as nossas mais corajosas dissimulações, a neve é um acidente saudosista e a cerração  a fiel parceira que estará conosco até que a morte nos separe.

Entrar na cerração é integrar-se a um mundo solidário único, porque nele ninguém é muito diferente de ninguém – a prova disso é que dentro dela os bonitos viram retratistas e os feios, modelos. Além disso, é um abrigo emocional afável porque derrama tolerância e simpatia aos que por ela se deprimem ou a acariciam com sorrisos infantis, trazendo serenidade para os puros e os impuros.

Por isso e muito mais, esperamos que São Pedro não roa a corda, conforme, volta e meia, tem a fraqueza de proceder. 

          

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