Um antigo mistério gramadense, de reflexos espirituais e financeiros, é o motivo pelo qual os turistas não nos abandonam em períodos de chuva, conforme pudemos testemunhar em recentes dias passados. É que é muito convincente a descrição que fazemos dos valores românticos que nossa terra oferece junto com a chuvarada. As flores se encolhem num encantador aconchego, os répteis progridem em seus hilariantes festejos, os bichos das capoeiras aperfeiçoam seus albergues de proteção. E o assovio do vento nos galhos das araucárias comunica que esse é o lugar deles, levantando a aceitação e o afeto por um desenho natural que testemunha os sopros de vida que garantiram, já há incontáveis gerações, a alegria de viver no mato.

Os habitantes daqui, por sua vez, se alegram com as enxurradas. Levam muito a sério a rubrica genética de que a chuva é a mãe de todas as vertentes que brotam do chão e garantem que em Gramado água nunca faltará, mesmo que a população aumente dezenas de vezes, se a Corsan resolver, enfim, nisso cumprir sua parte.

Outra fonte de alegria descida com a chuva é a certeza de que não haverá enchente. O motivo é que fomos destinados a sermos construtores de rios: nenhum a nós chega, porém muitos daqui saem. Há quem diga que alguns dos milhões de visitantes que temos, aqui estão para derramar gratidão à sede que eles não têm.

Mas, sabendo que idealização completa logo enjoa, o gramadense vê a chuva com suave e terapêutica picardia, atribuindo-lhe defeitos coloridos de afeto. Um deles é que ela causa alguns desmoronamentos de encostas, cansadas de estarem no mesmo lugar e que aproveitam a comunhão com a água para fugir da monotonia. Alguns dizem que as barreiras são as lágrimas da terra, derramadas em gratidão à vida que as águas permitem vicejar em seu ventre e em seus contornos.

Porém, o melhor de tudo é   que a chuva forte pode desembocar em chuvisqueiro e cerração, a mais insidiosa forma de despertar o amor gramadense por sua terra; eis que essas características não são encontradas, em seu desenho harmônico e completo, em nenhuma outra parte do mundo. Por isso tudo, rezamos para que São Pedro continue despejando em Gramado chuvaradas impiedosas e nós, para consolo dele, prometemos fazer de conta que estamos muito chateados.

 

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