Talvez a mais interessante descoberta dos seres humanos civilizados, ao longo dos séculos, tenha sido a conveniência de andarem vestidos. Milionários que passam a vida arrastando cifrões, militares que se vestem de matadores profissionais e saem às ruas sem nenhum constrangimento por isso, ou alguns artistas tornando-se caricaturas, muitas vezes de raro bom gosto ou o contrário em mesma intensidade, são alguns curiosos modelos na maneira de as pessoas cobrirem seus corpos. Tratando a questão com a suavidade que ela merece cumpre diferenciar os bem-arrumados dos bem-vestidos, tanto homens quanto mulheres.

Os primeiros compõem o grupo dos que aproveitam a moda para apresentarem-se como figuras belas, distintas e refinadas.  Ao mesmo tempo, esbanjam prosperidade que não ofende os que não podem ter o mesmo padrão, mas que são os admiradores que constituem sua corte, e que não podem ser atropelados. Os bem-arrumados são os que aproveitam, ao máximo, o pouco dinheiro que têm para se vestirem da melhor forma que podem, e que dão suporte ao desprezível e injusto ditado “pobre, mas limpinho”. Porém, ambos desfrutam das mesmas vantagens e desvantagens, desde que consigamos nos separar das maldições do preconceito.

Penso que o mundo brilha por um sentimento universal, o bom gosto. O divertido nesse sentimento está em que ele é complacente quanto às nossas formas originais de ver o ambiente em que vivemos: o bonito ou o feio estão antes dentro de nossa mente do que naquilo que estamos enxergando. Então, estaremos bem vestidos ou arrumados dependendo do que passa pela cabeça de quem nos olha; e por mais que caprichemos em nossa maneira de vestir, sempre haverá quem nos achará desengonçados, enquanto outros louvarão nossa oportuna aparência – supondo que nem todos estejam, simplesmente, “dando a mínima”.

Seria discriminatório, não fazer referência aos desarrumados. Alguns, conscientemente, não dão importância à roupa que vestem. Outros, pobres ou ricos, simulam andarem assim para parecerem intelectuais ou desinteressados na opinião alheia. Na verdade, procuram disfarçar sua maltratada vaidade, querendo um ser diferente do outro e acabando todos ficando iguais – como acontece no mundo das tatuagens. Por tudo isso, torna-se cada vez mais descabida a afirmação de que “o hábito não faz o monge”.

 

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