O cenário serrano, puxando para fim de outono e começo de inverno, deixa nossa região com características sem igual no mundo e se houver outras parecidas, pouco nos interessa. Porém ficamos com pena das terras alheias porque  que seus habitantes estão obrigados a levar a vida sem conhecer os encantos do pinhão.

O pinhão é o fruto mais serrano que existe testemunhando sua valentia pelo fato de ser a única fruta que tem coragem de enfrentar o frio arrepiante e as nevascas de cima da serra. Por esse atributo, o pobrerío que sobe a serra em busca de alimento durante os meses de abril, maio, junho e julho (período anual de maior fartura do pinhão), baixa, depois, bem nutrido e grato à fruta que  o sustentou tão generosamente.

O pinhão é o mais puro exemplo da fraternidade ambiental: as imensas araucárias libertam-se de seus filhos entregando-os à terra, não dando a ninguém o privilégio de seu consumo preferencial, deixando-os a disposição tanto dos bichos do mato, quanto dos caboclos que vão vendê-los nas beiras de estrada ou gente fina que os busca para impressionar seus amigos.

Os gramadenses, por outro lado, não escondem sua gratidão ao pinhão, pelo quanto que ele se transformou em atração turística. Visitantes carrancudos endireitam a cara quando percorrem, na chegada a Gramado, uma verdadeira alameda de tendas adornadas por um foguinho de mato e cheirosa fumaça de lenha úmida assoprada em suas narinas.

A venda de pinhão na margem das estradas é muito mais uma teimosa expressão cultural do que alguns reais no bolso de gente humilde: eles não se permitem ser explorados pelos impostos que parasitam as iniciativas de quem trabalha; quando catam seus pinhões não perguntam quem é o dono das árvores; vendem o produto pelo preço que querem e não dão a mínima para quem diz que eles são uma agressão ambiental ou que estragam a aparência das rodovias. E muito burocrata, metido a grande autoridade fiscal, saiu correndo quando viu o tamanho do facão que lhe ameaçava as costelas.

Por tudo isso, para nós, o pinhão não é simples alimento, é um símbolo espiritual que harmoniza o que somos com aquilo que nossa terra é. 

 

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