Já está completamente fora de moda comemorar a morte de Jesus Cristo através de lamentações impuras e teatrais. Estamos compreendendo que a morte Dele mostrou que a vida vai além dela mesma e que a morte é a porta que se abre para, enfim, justificar nossos prazeres e nossas dores.  Nesse sentido, em qualquer tempo, a morte é um anseio de libertação, eficientemente contido pelo tamanho de nossas causas e pela força de nosso instinto de conservação. Desse modo, os espíritos razoavelmente libertos dos patéticos medos do inferno, veem na cruz o mais sólido motivo de comemoração até hoje percebido pelos seres humanos. E a História, milênio após milênio, renova essa verdade.

Foi nessa onda de eternidade, vida e morte que os gramadenses, imbuídos de sua habitual modéstia e acostumados a não fazer nada com medo de fazer errado, resolveram criar um sepulcro onde não houvesse a morte de Cristo e, muito menos, o enterro da vida. Com isso Gramado tornou-se a Capital Nacional da Esperança.

Mas, para confirmar que nossas refinadas convicções são cândidas manifestações de espíritos puros, comovidos e isentos de qualquer ambição monetária, imaginamos um cenário comovente e original, buscando transformar em festa o costumeiro sacrilégio de banhar em tristeza a morte de um personagem cheirando a Paraíso. E tinha que ser diferente do estardalhaço que fizemos, através do Natal Luz, para anunciar que o nascimento de Cristo acontecia em Gramado – no que todo mundo acreditou e veio conferir.

Dessa vez, abandonamos a euforia dos fogos de artifício, as montagens cenográficas que transformaram a cidade num amplo presépio e a consagração da nunca vista excelência   a que pode chegar o teatro natalino. Em seu lugar, cruzamos os braços e entregamos a tarefa à Natureza.

Então, surpresa com a valorização que nunca alguém lhe deu, a Natureza nos ofereceu seu mais cuidadoso esmero e seu mais emocionado suspiro de gratidão:  soltou os coelhinhos e mandou que as quaresmeiras nos retribuíssem com milhões de flores, enquanto colocou no ar toda a suavidade e a paz que chegam junto com o outono. E deixou o recado de que a vida é um eterno recomeçar e que ela costuma prosseguir ao compasso da Esperança.

 

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