(Mc 3,20-35)

10º Domingo do Tempo Comum

O homem contemporâneo está se acostumando a viver sem responder a questão mais vital de sua vida: porque e para que viver. A coisa mais grave é que, quando a pessoa perde todo o contato com sua própria interioridade e mistério, a vida cai na trivialidade e na falta de sentido. Vive-se de impressões, na superfície das coisas e dos acontecimentos, desenvolvendo apenas a aparência da vida. Essa visão da vida é a raiz mais importante da falta de fé de não poucos.

Quando o ser humano vive sem intimidade, perde o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas coisas. Mas, sobretudo, perde a capacidade de “escutar” o mistério que se encerra no mais profundo da existência.

O homem de hoje resiste à profundidade. Não está disposto a cuidar de sua vida interior. Mas começa a sentir-se insatisfeito: intui que precisa de algo que a vida de cada dia não lhe proporciona. Nessa insatisfação pode estar o começo de sua salvação.

O grande teólogo Paul Tillich dizia que só o Espírito pode ajudar-nos a descobrir novamente “o caminho da profundidade”. Pelo contrário, pecar contra o Espírito Santo seria “carregar nosso pecado para sempre”.

O Espírito Santo pode despertar em nós o desejo de lutar por algo mais nobre e melhor do que o trivial de cada dia. Pode dar-nos a audácia necessária para iniciar em nós um trabalho interior.

O Espírito pode fazer brotar uma alegria diferente em nosso coração; pode vivificar nossa vida envelhecida; pode acender em nós o amor inclusive para com aqueles pelos quais não sentimos hoje o menor interesse. O Espírito é “uma força que atua em nós e que não é nossa”. Precisamos invocar a Deus com o Salmista: “Não afastes de mim teu Espírito”.

Não são poucas as pessoas que hoje se sentem indefesas diante dos ataques que sofrem a partir de fora e diante do vazio que as invade a partir de dentro. A sociedade moderna tem tal poder sobre os indivíduos que acaba por submeter muitos, afastando-os do essencial e impedindo-os de cultivar o melhor de si mesmos. Aprisionados no imediato de cada dia, muitas pessoas vivem demasiadamente agitadas, atordoadas por fora e sozinhas por dentro para poderem deter-se a meditar sobre sua vida e tentar a aventura de serem mais humanas.

A publicidade massiva, o afã consumista, os modelos de vida e as modas dominantes impõem sua ditadura sobre os costumes e as consciências, mascarando sua tirania com promessas de bem-estar. Quase tudo nos arrasta para viver de acordo com um ideal que já está assumido e interiorizado socialmente: trabalhar para ganhar dinheiro, ter dinheiro para adquirir coisas, ter coisas para “viver melhor” e “ser alguém”. Não é esta a meta de muitos?

Não é fácil rebelar-se contra esta forma de entender e viver a vida; é preciso uma boa dose de lucidez e coragem para ser diferente. As pessoas terminam quase sempre renunciando a viver algo mais original, nobre ou profundo. Sem projeto de vida e sem mais ideias, os indivíduos se conformam com “bem viver” e “sentir-se seguros”. Isso é tudo.

A fé não é uma reação automática, mas uma decisão pessoal que cada indivíduo deve amadurecer. Cada um deve fazer o próprio percurso, pois não existem duas formas iguais de viver diante do mistério de Deus.

 

Façamos nossa oração:

Senhor Jesus, ajuda-nos a reconhecer a ação do Espírito em ti e a percebermos a misericórdia do Pai atuando por teu intermédio. Amém.

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