(Mc 2,23-3,6)

A cena se passa num sábado, dia sagrado em que é proibido qualquer tipo de trabalho. Jesus coloca o paralítico no meio da assembleia e formula claramente o dilema: O que fazemos? Observamos fielmente a lei ou abandonamos este homem. O que se deve fazer: “Salvar a vida de um homem ou deixa-lo morrer”?.

Surpreendentemente, os presentes se calam, pois para eles era mais importante o que estabelece a lei do que preocupar-se com aquele pobre homem. Jesus olha entristecido e “com olhar indignado”.

A lei é necessária para a convivência política ou religiosa. Jesus não despreza. Mas a lei deve estar sempre a serviço da pessoa e da vida. É um erro defender a lei acima de tudo, e propugnar a ordem social sem nos perguntar se realmente está a serviço da pessoa e da vida.

A ordem não basta. Não é suficiente dizer: “Antes de tudo, ordem e respeito a lei, porque a ordem estabelecida num determinado momento numa sociedade pode defender os interesses dos bem-instalados e esquecer os desvalidos. Não se pode fazer passar a lei e a ordem por cima das pessoas. Se um ordenamento legal concreto não está a serviço das pessoas, e especialmente, os mais fracos e necessitados de proteção, então a lei fica vazia de sentido.

A Igreja deveria ser testemunho claro de como as leis devem estar sempre a serviço das pessoas. Nem sempre foi assim. Às vezes foram absolutizada algumas normas, considerando-as provenientes de uma ordem “querida por Deus”, sem perguntar-nos se realmente ajudam para o bem dos crentes e promovem a vida. Mais ainda. O cristianismo foi praticado não apenas poucas vezes como “uma suplementar de práticas e obrigações que vêm tornar mais duro e oneroso o peso, de per si tão pesado, da vida social”. (Teilhard Chardin).

Não é suficiente defender a disciplina da Igreja, se esta disciplina não ajuda, de fato, a viver com alegria e generosidade o evangelho. Não é suficiente defender a ordem e a segurança do Estado, se este Estado não oferece, de fato, segurança alguma aos mais fracos.

Em nosso meio existem pessoas necessitadas. Será que continuamos defendendo a ordem, a segurança e a disciplina ou nos preocupamos em “Salvar” realmente as pessoas? Se nos calamos, deveríamos sentir sobre nós o olhar duro de Jesus.

A contribuição mais decisiva de Jesus é fazer ver com firmeza e clareza que a obediência e Deus levam sempre a buscar o bem do ser humano, porque sua vontade consiste em que o homem viva em plenitude. Deus não existe para si mesmo, buscando sua própria glória numa espécie de “egoísmo metafísico”, como diria Maurice Blondel. “Deus é Amor, e sua glória consiste precisamente no bem de suas criaturas”.

Por isso, Jesus coloca a pessoa não diante de uma lei religiosa, mas diante de um Pai cuja preocupação última não é que cumpra a norma e sim que se busque o bem de todo o ser humano.

O exegeta alemão Josef Blank afirma que na religião de Jesus “o próximo toma o lugar da lei e suas necessidades determinam o que se deve fazer em cada situação”. Obedecemos a Deus quando ouvimos o chamado que ele nos dirige a partir do necessitado. Por isso é falsa a vivência da religião que leva a desinteressar-se do sofrimento humano. “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”.

 

Façamos nossa oração

Senhor Jesus, torna-nos pessoas livres, para que façamos sempre o bem ao próximo mesmo contrariando a letra da Lei. Amém

 

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