(Mc 1,29-39)

Em todos os aspectos da vida de Jesus há de se perceber o conteúdo profundo de seus gestos. É bom prestar a atenção como as mãos exercem uma importância no gesto humano. Podem curar ou ferir, acariciar ou golpear, acolher ou rejeitar. As mãos podem refletir o ser da pessoa.

Hoje se estuda com muita atenção as mãos de Jesus e sua importância no anúncio da Boa Nova. Os evangelistas destacam, sobretudo, os gestos de Jesus para com os enfermos. Vejamos: Às vezes Jesus “agarra” o enfermo para arrancá-lo do mal. Outras vezes “impõe” suas mãos num gesto de bênção, que transmite força curativa. Com frequência toca nos “leprosos” num gesto de proximidade, apoio e compaixão. Portanto:

Jesus Cristo é para os cristãos “a mão de Deus que estende a todo ser humano necessitado de força, apoio, companhia e proteção”. É essa experiência do crente ao longo de sua vida, enquanto caminha para o Pai.

Assim se deduz de que onde Jesus está Jesus cresce a vida. Onde está Jesus existe amor à vida, interesse pelos que sofre, paixão pela libertação de todo o mal. Os relatos evangélicos nos oferecem é a de um Jesus curador. Um homem que difunde a vida e restaura o que está enfermo. Por isso se vê ao redor dele as pessoas possessas, doentes, paralíticas, leprosos, cegos, surdos. Homens aos quais falta a vida: “...os que estão às escuras”, com diria Bertolt Brecht.

Por outro lado as curas de Jesus não solucionaram nada da história dolorosa dos homens. É preciso continuar lutando contra o mal, embora nos revelassem algo decisivo e esperançoso. Deus é amigo da vida e ama apaixonadamente a felicidade, a saúde, o prazer e a alegria de seus filhos e filhas. Por outro lado, Deus quer mostrar que no tempo e no espaço nossa morada não é definitiva, “somos peregrinos”. Tanto que a morte de Jesus foi o sinal claro da passagem deste mundo para o outro.

A doença é uma das experiências mais duras do ser humano. O que fazer quando a ciência já não pode deter o inevitável? Como estar junto ao familiar ou ao amigo gravemente enfermo?

A primeira coisa é aproximar-se. O que sofre não pode ser ajudado de longe. É preciso estar perto. Sem pressa. Ajudá-lo a lutar contra a dor. É um alívio para o doente poder desabafar com alguém de confiança. Nem sempre é fácil escutar. A escuta requer colocar-se no lugar daquele que sofre e estar atento ao que ele nos diz com suas palavras e, sobretudo, com seus silêncios, gestos e olhares. A verdadeira escuta exige acolher, compreender as reações do doente.

A teologia contemporânea procura recuperar pouco a pouco uma dimensão de cristianismo que, embora sendo essencial, foi se perdendo em boa parte ao longo dos séculos.

Diferentemente de outras religiões, “...o cristianismo é uma religião terapêutica”. (Eugen Biser)

A religião não é um remédio terapêutico a mais. A perspectiva é outra. A medicina moderna concentrou-se em curar órgãos e reparar disfunções, mas a pessoa é muito mais do que um “caso clínico”. Não basta curar enfermidades e doenças. É o ser humano que precisa ser curado!

Alguns teólogos apontam dois fatos que pode abrir um novo horizonte para a fé: 1. Por um lado, ”... está desmoronando por si só uma religião sustentada pela angústia e pelo medo de Deus, é um dos sinais mais esperançosos que estão ocorrendo ocultamente na consciência humana”. (Eugen Biser)

2. Abre-se assim um caminho para uma forma renovada de crer e de “experimentar Deus como força curadora e auxiliadora”. (Joachim Gnilka)

Talvez nos próximos séculos, só vão acreditar aqueles que farão a experiência de que Deus lhes faz bem, e comprovarem que a fé é o melhor estímulo e a maior força para viver de maneira mais sadia, com sentido e esperança.

É bom pensar!

 

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