(Mc 1,1-8)

Segundo Domingo do Advento

É preciso ir ao deserto. É assim que inicia a Boa Notícia de Jesus Cristo, Filho de Deus. João Batista começa a falar da urgente conversão pela qual todo o povo precisa passar para acolher o Messias e Senhor. Este é o grande serviço que ele presta a Jesus.

Jesus vai seguir um caminho contrariando as expectativas convencionais de muitos. A reação do povo é comovedora. Segundo Marcos muitos vão para o deserto a fim de escutar a voz que os chama. O Deserto lhes recorda sua antiga fidelidade a Deus, seu amigo aliado, no  entanto  é sobretudo, o melhor lugar para escutar o chamado à conversão.

Ali adquirem consciência da situação em que vivem; experimentam a necessidade de mudar; reconhecem seus pecados sem lançar culpa uns nos outros; sentem a necessidade de salvação. De acordo com Marcos, “confessavam seus pecados” e João “os batizava”

A conversão de que a nossa maneira de viver o cristianismo necessita não pode ser improvisada. Requer um longo tempo de recolhimento e trabalho interior. Passarão anos até que apareça mais verdade na Igreja e reconheçamos a conversão.

Necessitamos para acolher mais fielmente Jesus Cristo no centro de nosso cristianismo. Há hoje uma tentação de não “ir ao deserto”. Evitar a necessidade de conversão. Não escutar nenhuma voz que nos convida a mudar. Distrair-nos com qualquer coisa para esquecer nossos medos e dissimular nossa falta de coragem para acolher a verdade de Jesus Cristo.

Nós cristãos hoje precisamos fazer um exame de consciência coletivo em todos os níveis e reconhecer nossos erros e pecados, pois sem isto não estamos preparando o caminho do Senhor.

Quem apenas se agarra a leis, normas e mandamentos é um tipo de cristão entendido, embora o sem desejo de Deus, sem criatividade e nem paixão alguma por transmitir sua fé. Só cumprir ritos da religião? Na verdade transforma-se num peso difícil de suportar; em não poucos produz alergia em si e no restante da comunidade.

“Onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres criaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”. (Simone Weil).

É de grande importância tomar consciência de que a fé é um percurso e não um sistema religioso. E num percurso há de tudo, caminhada prazerosa e momentos de busca, provas que é preciso superar e retrocessos, decisões inevitáveis, dúvidas e interrogações: Cada um deve fazer seu próprio percurso e é responsável pela “aventura” de sua própria vida. O decisivo é buscar Deus como alguém a partir do qual minha vida pode adquirir mais sentido, orientação e esperança.

“Preparai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas”. Este grito de João Batista pode ser ouvido também hoje por homens e mulheres que buscam “salvação” de alguma maneira. O importante é “abrir caminhos” em nossa vida. Fazer algum gesto que manifeste nosso desejo de reagir. Deus está perto de quem O busca verdadeiramente.

O teólogo catalão J.M.Rovira nos lembra de que Deus se aproxima de nós buscando a fresta que o homem mantém aberta ao verdadeiro, ao bom, ao belo, ao humano. E estes resquícios da vida que devemos prestar atentos para abrir caminhos para Deus.

Para alguns a vida transforma-se num labirinto. Ocupados em mil coisas, mas não sabem de onde vêm nem para onde vão. Só quando deixam uma fresta é que Deus entra. Outros vivem submersos na “espuma das aparências”. Só se preocupam com a imagem. Só vão se encontrar mais perto de Deus se buscar com simplicidade a verdade.

Finalmente, muitos se encontrarão com Deus se souberem passar de uma atitude defensiva diante Dele a uma postura de acolhida, do tom arrogante à oração humilde, do medo ao amor, da autocondenação à acolhida de seu perdão. E todos nós daremos mais lugar a Deus em nossa vida se o buscarmos com o coração simples.

É bom pensar!

 

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