(Mt 18,21-35)

Neste evangelho percebe-se Mateus preocupado em corrigir os conflitos, disputas e enfrentamentos que podem surgir na comunidade dos seguidores de Jesus. É bem provável que escreveu seu evangelho em momentos que notou que a “caridade da maioria estava esfriando”. (Mt 24, 12).

Isso se explica pela forma como ele orienta para agir e tirar o mal dentro da comunidade, respeitando as pessoas, buscando antes de tudo a “correção a sós”, recorrendo ao diálogo com testemunhas fazendo intervir a comunidade, ou separando-se de quem pode causar dano aos seguidores de Jesus.

Mateus não podia esquecer as palavras de Jesus recolhidas por um evangelho anterior ao seu. Não eram fáceis de entender, mas refletiam o que havia no coração de Jesus.

Pedro se aproxima de Jesus, representando o grupo de seguidores: “Se meu irmão me ofende quantas vezes tenho que perdoar-lhes”? Até sete vezes? É uma pergunta não mesquinha, mas muito generosa. Afinal ele já havia ouvido as parábolas de Jesus sobre a misericórdia de Deus. Ele está disposto a perdoar “muitas vezes”, mas não há um limite?

A resposta de Jesus é contundente. “Não te digo sete vezes, mas até setenta vezes sete”: hás de perdoar sempre e de maneira incondicional.

Ao longo dos séculos, de muitas maneiras se quis minimizar o que Jesus disse: “perdoar sempre é prejudicial”; isto instiga e estimula o ofensor. “deve-se primeiro exigir seu arrependimento”. Parece razoável, mas oculta e desfigura o que Jesus pensava e vivia. Temos que voltar a Ele.

Em sua Igreja faltam homens e mulheres que estejam dispostos a perdoar como Ele, introduzindo entre nós seu gesto de perdão em toda sua gratuidade e grandeza. É o que melhor faz brilhar na Igreja o rosto de Cristo.

Às vezes pensamos ingenuamente que o mundo seria mais humano se tudo fosse regido por ordem, pela estrita justiça e pelo castigo aos que praticam o mal. O que seria uma sociedade onde fosse suprimido radicalmente o perdão? O que seria de nós se Deus não soubesse perdoar? Um casal sem mútua compreensão se destrói; uma família sem perdão é um inferno; uma sociedade sem compaixão é desumana. A parábola de Jesus é uma espécie de “armadilha”

O ressentimento alojado numa sociedade torna mais difícil a lucidez para buscar caminhos de convivência, e pode bloquear todo esforço para encontrar solução para os conflitos. O desejo de revanche é, sem dúvida, a resposta mais instintiva diante da ofensa. Quem pretende curar sua ferida infligindo sofrimento ao agressor, equivoca-se.

As grandes escolas de psicoterapia quase não estudaram a força curadora do perdão, considerando que o perdão é uma atitude religiosa.

O perdão é necessário para conviver de maneira sadia: na família, onde os atritos da vida diária podem gerar frequentes tensões e conflitos; na amizade e no amor, onde se deve saber agir diante de humilhações, enganos infidelidades; em múltiplas situações da vida, nas quais temos que reagir diante de agressões, injustiças e abusos. Quem não sabe perdoar pode ficar ferido para sempre.

É preciso, finalmente esclarecer: Perdoar não é confundir ira com a vingança. A ira é uma reação saudável de irritação diante da ofensa, da agressão ou da injustiça sofrida: o indivíduo se rebela de maneira quase instintiva para defender sua vida e sua dignidade.

O ódio, o ressentimento e a vingança vão mais longe do que a primeira reação: a pessoa vingativa busca causar dano, humilhar e até destruir a quem lhe fez mal.

Perdoar não quer necessariamente dizer reprimir a ira. Ao contrário, reprimir este primeiros sentimentos pode ser prejudicial se a pessoa acumula em seu interior uma ira que mais tarde se desviará para outras pessoas inocentes ou para ela mesma.

É mais sadio reconhecer e aceitar a ira, compartilhando talvez com alguém a raiva e a indignação. Para quem vive do amor incondicional de Deus é mais fácil perdoar. É bom pensar!

 

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